Economista diz 8 milhões de vagas absorvem apenas mão-de-obra nova
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terça-feira, 31 de agosto de 1999
Por Rita Tavares 
São Paulo, 01 (AE) - Os 8 milhões de novos postos de trabalho até 2003 anunciados no Plano Plurianual seriam suficientes apenas para absorver a mão-de-obra que entra no mercado de trabalho anualmente. A cada ano, 1,7 milhão de brasileiros engrossam esse mercado. "Haveria a estabilização do nível atual de desemprego e uma pequena queda do número atual de desempregados", disse o diretor-técnico do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), Sérgio Mendonça, vislumbrando restrições para o cumprimento dessa meta.
Se, a partir de 2001 ou 2002, a economia brasileira crescer 5% ou até um pouco acima, o desemprego entraria numa trajetória de queda. Pelas pesquisas do Dieese, há cerca de 10 milhões de desempregados no Brasil. Esse número cai para cerca de 5,5 milhões em projeções de estudiosos da área baseadas nos números do IBGE. "Apenas se a economia crescesse 7% ao ano por quatro ou cinco anos esse desemprego seria eliminado", ponderou Mendonça.
O economista admitiu, no entanto, que faltam instrumentos para que uma projeção mais apurada possa ser feita. A matriz insumo-produto, utilizada para calcular o possível número de postos de trabalho gerados a partir de um determinado crescimento, foi construída com informações de 1985. De lá para ca, a economia mudou substancialmente. Setores privatizados têm estruturas totalmente diferenciadas das existentes anteriormente.
Assim, esses possíveis 8 milhões de novos empregos não são necessariamente no mercado formal de trabalho, podendo engrossar o grau de informalidade da economia. "Também não estamos falando em qualidade, apenas em quantidade", ponderou Mendonça. A década de 90 trouxe uma mudança significativa no emprego e as projeções ainda sofrem pela falta de informações mais sofisticadas.
Restrições - As restrições externas e internas ao crescimento da economia, de 4% em 2000 até 5% em 2003, como prevê o governo, são os verdadeiros empecilhos para que o Plano Plurianual gere 8 milhões de novos postos de trabalho. "A economia ainda está frágil a qualquer acidente externo, como a elevação dos juros americanos ou um novo repique da crise argentina", disse o economista. O governo estaria muito otimista quanto à superação dessas restrições.
Dificuldades externas trariam mudanças de rumo no campo interno, ponderou Mendonça. Se o Orçamento não for cumprido, os projetos do plano passariam a sofrer, com menos recursos ou suspensão de remessas. Uma alteração no cenário macroeconômico, com alta de juros ou volta da inflação, desorganizaria mais ainda qualquer cronograma de trabalho. Mendonça ainda lembrou que o Congresso pode alterar, na votação, as metas do plano.
Do total de recursos do plano, R$ 1,15 bilhão viriam de parcerias do governo com a iniciativa privada. "Esses investimentos dependem da estabilidade político-econômica", ponderou Mendonça. Num ambiente desfavorável, esses investimentos não seriam feitos e, consequentemente, a geração de postos de trabalho ficaria comprometida. "Ou seja, o plano tem apostas", disse.
De acordo com Mendonça, o último Plano Plurianual, batizado de "Brasil em Ação", não foi cumprido porque as projeções do governo foram atropeladas pelas crises asiática e russa. O cenário macroeconômico ficou tumultuado e, consequentemente, projetos foram esquecidos ou receberam menos recursos. Assim, alguns dos projetos anunciados ontem são "mera repetição". O economista considerou, tecnicamente, o Plano Plurianual "muito bem feito", que poderia ser "uma peça orientadora" das ações do governo caso seja realmente executado.


