Brasília, 29 (AE) - A economia brasileira deverá crescer cerca de 3,5% no ano que vem, segundo o III Relatório de Inflação, divulgado hoje pelo Banco Central. É um número maior do que o previsto no II Relatório de inflação, no qual a estimativa de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) era de 3 2%. No entanto, ambas as projeções estão abaixo do crescimento de 4% incluído no acordo brasileiro com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
A projeção de crescimento de 3,5% leva em conta a hipótese de que os juros básicos da economia permanecerão em 19% ao longo do próximo ano - o que, segundo o BC, é um critério estritamente técnico e "não deve ser visto como previsão sobre trajetória futura da taxa de juros". O documento admite que o governo errou na projeção do desempenho da economia, tal como ocorreu com a inflação.
O crescimento a ser registrado no ano que vem não deverá elevar a inflação, de acordo com o relatório. A avaliação é de que há capacidade ociosa na economia, e isso significa que há espaço para crescer sem pressionar os preços para cima. Além disso, o consumo não está aumentando de forma muito acelerada, o que também contribui para afastar preocupações quanto à inflação.
Em 2000, o crescimento econômico será puxado pelo maior volume de exportações e pela elevação do volume de crédito, segundo o relatório. Na avaliação do governo, a disponibilidade de crediário incentivará as vendas, principalmente dos bens de consumo duráveis, como automóveis e eletrodomésticos. O relatório lembra que o crescimento da economia deverá também reverter a tendência de elevação do desemprego observada desde 98.
Balança - As expectativas do governo com relação à balança comercial foram "frustradas" neste ano, segundo o documento divulgado pelo BC. Logo após a desvalorização, foi previsto um superávit, neste ano, de US$ 11 bilhões. No entanto, a balança fechará com déficit. Para o ano que vem, o relatório do BC prevê superávit comercial, embora não arrisque uma projeção (no acordo com o FMI, a estimativa é de um saldo de US$ 5 bilhões).
"Três fatores justificam essa previsão", diz o relatório. Em primeiro lugar, porque a desvalorização do real frente ao dólar tornou os produtos brasileiros mais baratos no mercado internacional, aumentando sua competitividade - porém, os efeitos benéficos sobre a exportação demoraram a aparecer. Por isso, houve frustração quanto ao saldo de 99, mas as exportações deverão crescer em 2000.
Em segundo lugar, porque "várias mercadorias cujos preços estiveram em queda desde a crise asiática já mostraram sinais de recuperação", segundo o relatório. Finalmente, porque projeta-se crescimento na economia mundial como um todo no ano que vem, "em especial na América Latina." Superado o quadro recessivo apresentado neste ano, os países vizinhos aumentarão suas importações de produtos brasileiros, principalmente os manufaturados.
Internacional - O BC espera, para o próximo ano, menos turbulências no mercado internacional, embora o perigo ainda não tenha sido totalmente afastado. "O cenário externo ainda apresenta riscos", afirma o documento. "A principal fonte de incerteza continua sendo a possibilidade de desaceleração brusca da economia dos Estados Unidos." Esse "tranco" poderia ser motivado pela elevação das taxas de juros ou por quedas acentuadas nas bolsas de valores - o que teria repercussões negativas sobre o Brasil.
O relatório alerta que, embora o crescimento registrado naquele país continue "robusto" e as taxas de desemprego, baixas, os fatores que proporcionam o crescimento sugerem "desaceleração paulatina para o próximo ano". Para os países emergentes, porém, a perspectiva é de crescimento ao longo do próximo ano, "como atesta a recente elevação no preço dos títulos soberanos desses países". O BC avaliou que as incertezas com relação à Argentina diminuíram após as eleições.
Eleições - O relatório ressalta que o bom desempenho do governo na área fiscal, com o cumprimento de todas as metas acordadas com o FMI, contribuiu para a estabilidade dos preços e também reduzir o chamado risco Brasil. "Contudo, vale alertar que as eleições municipais do ano que vem implicam atenção redobrada no tocante aos gastos públicos", alerta o documento. "É essencial manter a austeridade, componente fundamental da política macroeconômica."

mockup