As economias da América Latina vão viver um ‘‘ano de ressaca’’ em 1999, embora os países da região tenham feito ‘‘quase tudo certo’’ nos últimos anos, com medidas como privatização, abertura de mercados e controle de gastos, conforme previsão da reportagem especial da agência Dow Jones sobre as perspectivas da América Latina no ano que vem.
A reportagem vê 1999 como um período de altas taxas de juro, crédito escasso e baixa nos preços das commodities, fatores que deverão sufocar as possibilidades de crescimento econômico da região. As previsões em Wall Street indicam que o Brasil deverá ter crescimento econômico negativo em 1999, enquanto México e Argentina apresentarão um crescimento modesto.
A reportagem especial da Dow Jones ressalva que as previsões mais pessimistas de alguns meses atrás acabaram não se realizando. Muitos observadores temiam que um colapso da economia brasileira provocasse um ‘‘efeito dominó’’ em toda a América Latina. Mas vários eventos ajudaram a acalmar os mercados, entre eles a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, em outubro, e o anúncio de um pacote internacional de assistência financeira ao País, de US$ 41,5 bilhões. O pacote, anunciado em 13 de novembro, ajudou a conter os temores de uma iminente desvalorização do real. Apesar disso, os analistas acreditam que o Brasil ainda está em terreno perigoso, tendo que implementar um programa ‘‘traumático’’ de austeridade e sob observação constante dos mercados.
A recente rejeição de uma das medidas do pacote de ajuste fiscal foi punida pelos investidores nos mercados de ações e bônus. Os investidores temem que o Brasil se mostre incapaz de implementar a prevista redução de gastos de US$ 23 bilhões, por causa de resistências no Legislativo. Isso faria recomeçar o fluxo de dólares para fora do país e poderia acabar provocando uma desvalorização forçada do real. A consequência seria a volta da crise aos mercados emergentes como um todo.
A reportagem indica que outros perigos diante da América Latina estão fora da própria região. Entre esses, estão a possibilidade de desaceleração do crescimento econômico dos Estados Unidos e da Europa. Caso isso aconteça, os países desenvolvidos continuarão a reduzir suas taxas de juro, o que levaria os preços das ações a subir a níveis irreais. A reportagem prossegue afirmando que, mesmo que não se confirmem os cenários de desastre, o quadro para 1999 é de dificuldades, com previsão de recuperação só no ano 2000.
De acordo com a Dow Jones, os sinais mais recentes são de que a América Latina já superou o pior da crise financeira de 1998 à exceção dos países centro-americanos devastados pelo furacão Mitch, que ainda dependem de muita ajuda. Por outro lado, os mercados de crédito, fechados à América Latina entre agosto e meados de outubro, reabriram-se para vários países da região. A Argentina, por exemplo, fez várias emissões bem-sucedidas de bônus, assim como a estatal mexicana Pemex, do setor de petróleo. Outra evidência da renovação do interesse dos investidores pelos mercados emergentes foi a emissão de bônus de US$ 1 bilhão pela China, poucos dias antes do final do ano passado. Até mesmo o fundo de hedge Long Term Capital Management, visto por muitos como símbolo dos excessos nos mercados emergentes, registrou US$ 400 milhões em lucros desde que as agências reguladoras norte-americanas coordenaram uma operação de socorro, em setembro passado.

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