Agora fora das grades e ao lado da família, Jean Mantovani conta a versão dele da história que, embora sofrida, o motivou a iniciar um trabalho de oração pelos presos da Cadeia de Ibiporã. De berço evangélico, ele completou 18 anos no dia 21 de abril. Desde criança, toca violino, canta e ministra na igreja. Foi ungido pelo pastor como “missionário”. “Nunca tinha sido enquadrado nem nada do tipo, nem sabia o que pensar”, lembra, sobre o momento que os policiais o abordaram, quando chegava ao ponto de ônibus para voltar para Londrina.

Imagem ilustrativa da imagem 'É um lugar que muda algo em você '
| Foto: Marcos Zanutto

Para o advogado Edson Silva, tanto o caso de William Salmaso como o de Mantovani requerem uma reflexão da Justiça. “Há pessoas que sofrem o peso de uma prisão indevida sem ter a dedicação da família. Não são todos os advogados e famílias que têm essa condição. De repente, se a família faltar no serviço para ir atrás, corre o risco de perder o emprego”, afirma.

Mantovani passa cinco dias da semana com a tia, na Vila Casoni, na área central de Londrina, para trabalhar como serralheiro com o tio. Aos fins de semana costuma voltar para Ibiporã para ver a avó – por quem foi criado – o pai e a namorada. No Dia dos Pais, saiu da casa da namorada pouco depois das 21h e deixou um bilhete para o pai. Da casa, ligou para a tia às 21h50 avisando que pegaria o ônibus. Estava sem celular porque havia sido roubado e juntava dinheiro para comprar outro. “Para cortar caminho até o ponto de ônibus eu peguei uma estrada de terra na rua atrás de casa e cortei pelo meio”, recorda. Foi quando foi preso.

A tia dele, Eliana Mantovani, 45, ficou preocupada quando passou das 23 horas e Jean não havia chegado. Sem contato com o sobrinho, foi, mais tarde, informada que ele estava preso. Ligou então para o advogado Edson Silva. As visitas rotineiras do advogado durante os 17 dias de cárcere reconfortavam Jean. “Ele dizia sempre para a família não desistir dele”, conta Silva.

O advogado diz que, por conhecer Jean, o apoiava emocionalmente nas visitas, falando para ter fé e acreditar. Algumas vezes, o menino parecia mais tranquilo; outras, com os olhos marejados. “Sofri com a família. Minha filha de sete anos mandou uma Bíblia para ele. Não são todos que têm isso”, relata.

RECOMEÇO

Na manhã de quinta-feira (29), Jean tomava café com a família nos fundos da casa em Londrina. O próximo passo para a defesa é provar a inocência dele e, em um segundo momento, pedir indenização. “Para que o Estado previna. Pensamos que a família passou por essa situação enquanto os verdadeiros assaltantes ainda estão soltos”, ressalta o advogado.

Aliviado pelo reencontro, o menino parece até ser mais velho ao considerar que algo bom pode ser tirado do tempo encarcerado. “Por mais que foram 17 dias, parecia 17 anos. Tudo que passei estou vendo como aprendizado. Fazia cinco meses que tinha me afastado da igreja e me envolvido em festas e amizades novas. Certamente Deus permite coisas na nossa vida. Se ele permitiu que eu ficasse esses dias na cadeia, foi para eu ter um aprendizado. Vou levar isso para minha vida”, conta.

Era um lugar estranho, uma situação estranha. Na primeira semana eu não falava com ninguém. Quando tentava conversar vinha uma crise, eu só chorava, não conseguia comer direito. É um lugar que muda algo em você, muitos desacreditam que algo bom pode acontecer.”

Conversa que se ouvia todos os dias é de que os detentos permanecerão lá por muito tempo, segundo ele. “Matam a esperança de quem entra. Diziam, ‘se tem provas para te incriminar pode se preparar que você vai ficar aqui por anos’.”

Depois do trauma, Mantovani se comprometeu a pelo menos uma vez por semana levar um trabalho cristão para a cadeia. “É um lugar que precisa de fortalecimento emocional, uma palavra de conforto, um ombro amigo, uma oração. Eles anseiam por alguém que possa escutar o que eles queiram dizer.”

RISCO DE PRENDER INOCENTES

Prisões indevidas podem gerar processos por danos morais e materiais contra o Estado. Questionada sobre possíveis erros, a Polícia Civil informa, por meio de nota, que sua principal missão é a busca pela verdade no esclarecimento de crimes. E que a atuação policial, por vezes, não se encerra com o encaminhamento do inquérito à Justiça. “Foi isso o que aconteceu neste caso específico [de William Salmaso]. As investigações continuaram e o policial civil relatou ao juiz que o réu não era a pessoa nas imagens, contribuindo com a verdade e a justiça”, aponta a nota.

Sobre a ação de indenização pela prisão de William Salmaso, o delegado de Homicídios, João Reis, não nega que existe a possibilidade de processo, mas lembra que a função da polícia “não é se preocupar com as consequências que surgirão, mas buscar a verdade”.

Reis explica que na delegacia está em andamento uma investigação sobre outro homicídio, na qual surgiram informações de que Salmaso não estaria envolvido no crime ocorrido em frente ao Creslon. “Ele ficou em silêncio a pedido dos outros envolvidos [no tiroteio] e não declinou quem era o quarto indivíduo [no caso do Creslon]”, afirmou. Este novo inquérito analisado pela polícia com informações conexas ao caso de Salmaso será finalizado em até dois meses, de acordo com o delegado.

A Polícia Civil tem a função de buscar sempre a verdade real. Chegou essa informação de que o William Salmaso não era o quarto indivíduo envolvido naquela morte e sim uma outra pessoa, e que ele ficou em silêncio a pedido dos demais envolvidos porque a divulgação do quarto indivíduo iria prejudicar os outros que estão presos”, resume.

A advogada de Salmaso, Aline Capocci, discorda da versão apresentada pela autoridade policial. “Ele não declinou porque não sabia quem era, mas ele não ficou em silêncio, deu o depoimento negando a participação.”

Segundo Reis, “são muito raros os erros [de investigação]”. “Não me recordo de uma situação dessa aqui em Londrina. Não nos interessa que alguém permaneça injustamente preso se chegarem informações posteriores de que essa pessoa não estava envolvida”, garante. Segundo o delegado, o erro policial neste caso não foi “grotesco”, já que existiam indícios à época que ligavam o suspeito ao fato. “Por isso ninguém é considerado culpado até o trânsito em julgado.”

Reis explica que é por isso que as investigações devem continuar. “Conseguimos chegar à verdade, de que o William não era o quarto indivíduo envolvido na morte. Com informações novas, vamos atrás do culpado”, garante.

Um meio para reduzir o risco de prender inocentes é o fortalecimento das audiências de custódia, como opina a gerente do Instituto Sou da Paz, Stephanie Morin. A prática foi adotada em 2015 para conferir a legalidade da prisão em flagrante efetuada pela polícia. “É uma garantia de que a pessoa presa será apresentada a um juiz competente em até 24 horas e terá a oportunidade de contar a sua versão dos fatos”, diz.

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