É tempo de catapora
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de agosto de 2006
Vitor Cavalcanti e Fernanda Aranda<br>Agência Estado 
Um inverno atípico como o que vivemos agora, além de interferir na rotina e programação das pessoas e de fazer com que roupas de inverno e cobertores voltem para o baú, também altera o ciclo de algumas doenças. Com os termômetros na casa dos 30º, o calor pode se tornar um risco. Além das doenças respiratórias provocadas pelo ar seco, as temperaturas altas também podem fazer com que a catapora apareça e provoque surtos inesperados, principalmente em creches e escolas.
''O número de casos registrados de varicela, conhecida popularmente como catapora, costuma aumentar no final de agosto e início de setembro. Nesta época do ano, a aglomeração de pessoas facilita o contágio da doença, em especial nos locais em que as pessoas passam muito tempo'', explica o coordenador de Controle de Doenças (CCD) da Secretaria de Estado da Saúde, Carlos Magno Fortaleza. Em 2005, só no Estado de São Paulo, 29.148 casos da doença foram registrados.
Causada pelo vírus Varicela zoster, a doença é altamente infecciosa. De acordo com a chefe do setor de Infectologia Pediátrica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Lily Yin Weckx, mais de 90% dos casos registrados de catapora acontecem em pacientes com idades entre um e nove anos. ''Nessa faixa etária, é mais comum aparecer a doença porque, nos primeiros doze meses de vida, o bebê tem anticorpos maternos que impedem a manifestação do vírus. Após essa idade, a proteção acaba e a criança fica mais suscetível a desenvolver a catapora'', afirma a especialista da Unifesp.
Como no período dos surtos as crianças estão em aula, o contágio em ambiente escolar é o que mais preocupa os médicos e as autoridades. Para evitar que as carteiras das salas de aula fiquem vazias por causa da catapora, o ideal é que as escolas e creches fiquem atentas. ''As instituições de ensino devem identificar o aluno doente e, após a recomendação médica, solicitar o seu afastamento. Só assim os outros estudantes deixam de ser infectados e os surtos são impedidos'', orienta o coordenador estadual Fortaleza.
A professora de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Lúcia Bricks, verifica que os sintomas são similares ao das doenças gripais, o que dificulta o diagnóstico precoce e complica o controle da proliferação da catapora nas creches e escolas. Ela também observa que, no início da doença, não há nenhum exame capaz de mostrar que a criança está infectada com o vírus. ''É complicado saber até onde a criança pegou o vírus. Ninguém consegue precisar se foi na escola ou de um priminho, por exemplo'', avisa.
A catapora é transmissível a partir do momento em que surgem os primeiros sintomas -o que ocorre entre 14 e 21 dias após o contágio. A transmissão acontece por contato direto com a saliva ou secreções respiratórias da pessoa infectada, ou ainda pelo contato com o líquido que vaza das vesículas (bolhas cutâneas provocadas pela doença). No geral, a recuperação leva entre sete e dez dias após o aparecimento dos sinais. Os médicos recomendam repouso em casa e sem ir à escola por, pelo menos, cinco dias. Alguns especialistas defendem a volta às aulas somente após a cicatrização total das lesões.


