É preciso parar para ouvir
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domingo, 14 de abril de 2013
Silvana Leão<br>Reportagem Local 
Londrina - Angústia. Este sentimento profundo e presente desde sempre na humanidade nunca representou um desafio tão grande como agora. Definida por alguns como um abafamento que se sente sem uma causa aparente, ela está na raiz de muitos e preocupantes comportamentos registrados entre os jovens deste início de século. Incapazes de lidar com esta emoção, eles tornam-se cada dia mais violentos, consomem cada vez mais drogas e bebidas alcoólicas, adquirem bens materiais em excesso, postergam ao máximo a saída da casa dos pais.
Mas afinal, por que a angústia, uma emoção normal no ser humano, tornou-se uma ameaça? Porque não sabemos mais como lidar com ela. Este foi o alerta feito pelo psicólogo clínico, psicanalista, neuropsicólogo e professor convidado da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp Ivan Capelatto, que esteve em Londrina na última semana para proferir palestras a alunos e pais do Colégio Universitário.
Segundo ele, a angústia é resultado da ação da amígdala cerebral sobre nós, e sempre ocorre quando estamos vivendo coisas terminais, como o fim do dia, de um namoro, de uma festa. Sua função é fazer com que tenhamos a capacidade de viver uma frustração. De acordo com o psicanalista, porém, assim que a sociedade industrial começou a se movimentar e passamos a consumir, aumentou muito a angústia, porque passamos a ter mais coisas para ver o fim. Então começamos a repô-las, comprando mais que o necessário. Passamos a não ver muito o fim das coisas, mas existe o fim do prazer. Por exemplo, compramos três camisetas, ainda nem usamos e já acabou o prazer, porque o prazer ficou na compra.
Capelatto lembra que à medida que passamos a tentar evitar a angústia ela tornou-se algo patológico e começamos a adoecer. O que era para ser bom e protetor, começou a transformar-se em ansiedade, transtorno do pânico, transtorno compulsivo, depressão, psicose, autodestruição. Como a angústia não é mais canalizada, vemos tantos jovens que bebem, usam drogas, machucam os outros. Uma forma de canalizar esta emoção, de acordo com o estudioso, é falar desta angústia. Ou transformá-la em música, em poesia, como faziam os grandes compositores e os grandes poetas. Enfim, é preciso expressar o sofrimento que estamos sentindo para lidar melhor com ele.
Para o psicanalista, ter alguém que possa nos ouvir falar sobre nossa angústia, como um bom amigo, um bom pai, uma boa mãe, é um dos caminhos mais saudáveis. Este ouvinte não precisa ter a preocupação de dizer alguma coisa de volta, basta escutar. Mas a gente quase não tem feito isso. Esta nossa relação mais material com a vida nos fez ter muitas perdas, e isto tem gerado angústias demais, resume, lembrando que o uso de drogas, de álcool e de medicamentos como ansiolíticos e antidepressivos são uma forma química de lidar com este sentimento. O problema é que tudo isso tem consequências. A maconha, por exemplo, provoca o Alzheimer precoce, a perda do desejo sexual, danos à memória, à capacidade de juízo crítico e até à marcha.
Outras formas encontradas por crianças e jovens para tentar fugir da angústia, segundo Capelatto, é repetir de ano ou mesmo adoecer (com dores de cabeça e alergias que não passam, por exemplo), em um processo chamado de somatose. Ele explica que são formas de parar a vida, de não ter que enfrentar a angústia que faz parte dela. Alguns, quando estão sarando, fazem algo para adoecer de novo, porque o fim da doença, para estas crianças e jovens, é uma angústia. Significa que eles terão que retomar a história do começo, meio e fim da vida.


