É preciso a extradição? Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 8 (AE) - Tanto em Santiago, quanto em Paris, em Madri, em Londres ou no Rio, o veredito do tribunal inglês de Bow Street era ansiosamente aguardado. O veredito é severo. Mas, apesar disso, não encerra este interminável "pingue-pongue" que prossegue há um ano, desde o dia 17 de outubro em que o senador vitalício, Augusto Pinochet, ex-ditador chileno, foi interpelado em Londres a pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón. As duas partes vão recorrer contra a decisão, dentro do prazo de 15 dias. Os antigos partidários de Pinochet irão berrar de raiva. Os filhos, as filhas, os esposos e as esposas das pessoas assassinadas irão alegrar-se.
Contudo, o processo não se detém absolutamente no ponto em que estava. Enquanto, , no dia 24 de março, os Lordes rejeitaram o essencial dos crimes imputados ao acusado (na medida em que a Inglaterra só assinou a Convenção contra a Tortura em dezembro de 1988) e mantiveram apenas os últimos espasmos assassinos da ditadura, o juíz Ronald Bartle decidiu retornar ao motivo inicial, isto é , reintegrar, na lista dos delitos, os 33 casos de tortura anexados pelo juíz espanhol Garzón ao pedido original.
A severidade de Londres causa supresa, porque o juiz Ronald Bartle é considerado um homem ligado aos "conservadores" que fazem uma ferrenha campanha em favor da libertação imediata do acusado (Margaret Thatcher combate ardentemente por seu antigo amigo Pinochet , "único prisioneiro político da Grã-Bretanha")_ Depois de apresentar friamente os fatos , podemos acrescentar uma opinião pessoal? Com certeza, as torturas, a imoralidade da tirania chilena, seus assassinatos foram praticados bem depois do sucesso do golpe de Estado. Tudo isso é inegável. Tudo isso provoca repulsa.
Mas, com uma espécie de heroísmo, não se deveria perdoar, deixar o tempo passar sobre as lembranças? Entre os familiares dos mártires ninguém poderia aceitar isso. Uma grande parte do povo chileno também não concordaria com isso.
Mas, o estado miserável desse personagem não deveria ser levado em conta? Este homem é um velho trêmulo, diabético, portador de um marca-passo e já sofreu duas crises cardíacas. O espetáculo que ele oferece quando a televisão o surpreende ao sair de um carro é lamentável. Um entrevado de luxo.
Certamente, o próprio Pinochet, quando "reinava" sobre o Chile, não praticou o perdão nem a piedade. Seu tipo não é o do mocinho, do homem bom. Mas será preciso adotar a mesma brutalidade que ele praticou? Não se poderia dizer que, se nos lançássemos com fúria até o fim contra esse fantasma ambulante, estaríamos dando a impressão de estar justificando, num sentido metafísico muito misterioso, seus antigos delírios?
Há trinta anos, quando a França fazia guerra contra os patriotas argelinos e os torturava nos quartéis, às vezes até à morte, levantou-se uma grande voz , a voz extremamente nobre do católico Pierre-Henri Simon. O artigo por ele publicado ganhou manchete de primeira página no jornal "Monde": "Somos os derrotados de Hitler!" (... pois aplicamos contra os argelinos o mesmo tratamento que os nazistas reservaram aos patriotas da Resistência francesa de 1939-45|).
Depois, seria absurdo pensar que o senador vitalício, supreendido pela justiça do mundo no final de sua deplorável caminhada, já perdeu, totalmente a partida, seja ou não extraditado? Ele perdeu a partida.
Perdeu a honra. É um decaído, um desprezado. Este fim de vida crepuscular, em meio às sombras, já é um cartigo terrível. Será preciso acrescentar a extradição?
Alguém poderia objetar que este processo vai além da pessoa de Pinochet: a justiça e a extradição são necessárias porque elas proclamarão à terra inteira que, no futuro, nenhum ditador, nenhum assassino, poderá retirar-se ileso às suas terras depois de praticar seus crimes.
Mas, digamos claramente: a tragicomédia judiciária que dura há um ano, a aparição, aqui e ali, desse fantasma que é o ditador não constituem advertências cruéis dirigidas a todos aqueles que , no futuro, gostariam de imitar esse velho sinistro?
Existe uma frase imperdoável de Goebbels, ministro de Hitler: "Eu os perseguirei até o fim do mundo, até que eles se arrebentem". Goebbles falava então dos judeus e sua profecia se cumpriu nos anos seguintes.
Mas será preciso retomar a ignomínia de Goebbels? Pronunciar sua frase e dar-lhe sentido hoje em dia, não seria, de certa forma, deixar-se aspirar pelo abismo sulfuroso e nauseeabundo no qual o homem e a humanidade correriam o risco de serem massacrados?
Estes são os motivos pelos quais eu me inclinaria pessoalmente, não em favor do esquecimento, mas da compaixão desdenhora. Compreendo que os que viram a morte e o suplício massacrar seus amigos, seus familiares, não podem raciocinar desta forma. Mas, apesar de tudo, não possso deixar de desejar que essa cadeia pegajosa do sangue e da vingança, do rancor e do ódio, seja emfim rompida.





