Imagem ilustrativa da imagem "É possível sair de uma relação abusiva inteira e íntegra", diz Luiza Brunet
| Foto: Gina Mardones

O Brasil tem hoje 62% de sua produção econômica e sua força de trabalho concentradas em mãos femininas, e mesmo assim a estrutura patriarcal que coloca a mulher abaixo do homem ainda impera na sociedade e tem a violência contra a mulher como um de seus principais reflexos. No Estado, são 398 ações de feminicídio em andamento no TJ-PR (Tribunal de Justiça) do Paraná e Londrina, com 31 processos, só fica atrás de Curitiba, onde 74 ações do tipo correm na Justiça. Nesta sexta-feira (16), o 2º Seminário de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher reuniu especialistas na área para discutir a questão com enfoque na educação.

O evento, promovido pela OAB-Londrina (Ordem dos Advogados do Brasil), TJ-PR, Delegacia da Mulher, prefeitura e Acil (Associação Comercial e Industrial de Londrina), também contou com a participação da modelo e empresária Luiza Brunet, agredida pelo ex-companheiro há três anos e que a partir de então empunhou a bandeira da luta contra a violência à mulher. Durante o seminário foi feito o lançamento oficial do programa Mãos EmPENHAdas contra a Violência. Criado em 2017 pelo TJ do Mato Grosso do Sul, o programa consiste em capacitar e qualificar profissionais de beleza e estética para identificarem casos de abuso e violência entre suas clientes e poderem encaminhar aos serviços que compõem a rede de assistência à mulher

Desembargadora do TJ-PR e coordenadora do Cevid (Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar no Paraná), Lenice Bodstein destacou que há várias dificuldades no combate à violência contra a mulher e uma delas é o entendimento do que significa crime de gênero. “A mulher, quando ela morre pela condição de ser mulher, então ela está enquadrada na nossa luta pelo feminicídio. Não é possível se pensar hoje que uma mulher morra pela sua própria condição de nascimento”, disse. Falar das mulheres como vítimas de violência, ressaltou a desembargadora, é também falar dos filhos e dos outros familiares que estão no entorno do relacionamento abusivo e que também sofrem com ele.

Bodstein defendeu também a erradicação dos “gastos inúteis do Estado” por não mudar a cultura patriarcal. “Nossa legislação, culturalmente, colocou o homem em uma situação em que a mulher ficou submissa. Tivemos uma sequência a partir das constituições de 1946 em que o homem era a cabeça do casal, dizia isso na lei. A partir da Constituição de 1988, possibilitamos que a ONU (Organização das Nações Unidas) e OEA (Organização dos Estados Americanos) imponham penalidades ao Estado brasileiro se nós não implementarmos meios de combate à violência em nome dos direitos humanos. E nós temos a Lei Maria da Penha, a grande condenação do Brasil. Mas a legislação, por si só, não resolve. Essa é uma verdade.”

Questão cultural

A violência não pode ser vista como algo único e isolado na vida de uma mulher. Ela decorre de uma série de condutas, ações e da cultura, destacou a vice-presidente do Cevid e coordenadora do Cladem (Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher), Sandria Lia Leda Bazzo Barwinski. “Um dos fatores que desencadeia a violência é o fator cultural. “Por isso nós, no sistema de justiça, nem sempre nos sentimos aptos a lidar com ela. O sistema de justiça vai entrar na violência no momento em que ela já aconteceu. Por isso a gente trabalha a prevenção e os fatores que levam à violência”, pontuou.

Dentro da questão cultural, estão o machismo, comportamento que coloca a mulher como propriedade do homem, um ser de menor valor e a quem são vetadas determinadas condutas. Desconstruir essa cultura, revendo conceitos e desfazendo preconceitos, seria uma forma de prevenção, afirmou Barwinski. A coordenadora do Cladem reconhece as falhas na estrutura do sistema de justiça, que segundo ela não foi pensada para atender aos crimes contra a mulher, e que dificulta a respostas a esses crimes. “Quando você fala do acesso à Justiça, você fala de um acesso centralizado, que não chega na zona rural, por exemplo, que tem outro tempo que não é o tempo da mulher. Que entende a violência como um ato único e não como um processo.”

Barwinski cita pesquisas cujos dados apontam que quando uma mulher vítima de agressão procura o sistema de justiça ela já sofreu, em média, dez anos de violência. “Boletim de Ocorrência desencadeia todo o processo sem que a gente olhe para o que aconteceu antes. Falta para nós uma visão desse todo porque nosso sistema foi concebido dentro de uma lógica que não é a da violência doméstica e familiar.”

Segundo Bodstein, há um empenho do Judiciário para dar a Londrina o segundo juizado especial, mas há limitações financeiras a serem contornadas. “Estamos vendo com o menor custo possível porque todos nós trabalhamos hoje com um orçamento muito apertado e o juizado de violência doméstica, é bom lembrar, trabalha em rede e nesta rede também precisa ter uma estrutura diferenciada.”

"É possível sair de uma relação abusiva inteira e íntegra", diz Luiza Brunet

Como embaixadora do programa Mãos EmPENHAdas contra a Violência, Luiza Brunet encoraja as mulheres a registrarem boletins de ocorrência e denunciarem seus agressores. “É uma ajuda para poderem compreenderem melhor a situação e saírem realmente íntegras.”

Em maio de 2016, Brunet foi agredida pelo então companheiro, o empresário Lírio Parisotto, em um hotel em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Entre vários ferimentos pelo corpo, ela teve quatro costelas quebradas. A modelo processou o agressor e ganhou a causa. A sentença contrária ao empresário foi finalizada em fevereiro deste ano. “Já compreendia bastante essa questão da violência porque eu sempre trabalhei com causas sociais e principalmente, com a mulher. Mas não sabia que era tão ruim sofrer violência. A minha maneira de ver hoje em dia é muito mais sensível”, comentou.

“Eu fico extramente feliz com a possibilidade de falar com as mulheres ao redor do Brasil e fora do País. Me sinto privilegiada de poder dizer a elas que é possível sair de uma relação abusiva inteira e íntegra”, disse Brunet. A agressão sofrida por ela, disse, é a prova de que a violência não escolhe classe social ou idade. “Com 54 anos de idade, uma mulher independente, mãe de filho adulto, sofrer violência não tem um parâmetro. A ONU já classificou como uma epidemia global contra as mulheres.”

A modelo ressalta a importância de superar a vergonha e denunciar, especialmente entre as figuras públicas. “É muito importante as mulheres que são conhecidas fazerem denúncias para as pessoas comuns, que sofrem regularmente, não se intimidarem. Quando a pessoa sai e fala, atrás vem muita gente.”

Desde que foi vítima de violência física e foi à mídia contar sua história, Brunet disse que muitas mulheres passaram a se identificar com ela e hoje a procuram para relatarem seu sofrimento. “Minhas redes sociais basicamente viraram um consultório feminino e masculino também porque muitos homens me fazem relatos dizendo que não sabiam que estavam agredindo suas mulheres quando a ofendiam, a empurravam, a desqualificavam.”

mockup