'É igual ao alcoolismo'
Londrina - Passa das 19h30 de uma segunda-feira à noite quando o microempresário Roberto (nome fictício) abre a sala localizada na área externa do grande salão paroquial da Catedral Metropolitana de Londrina. Junta as cadeiras, pendura alguns cartazes de autoajuda na lousa e põe livros sobre economia financeira em cima da mesa. "Aos trancos e barrancos, já estamos há mais de dez anos na ativa", diz. Roberto é um comprador compulsivo e está ali para coordenar mais um encontro semanal do Devedores Anônimos (D.A.).
Ainda que com bem menos participantes do que em 2001, quando foi inaugurado com mais de 50 adeptos no mesmo local de hoje, o grupo é o único do gênero ainda em funcionamento no Paraná. As atividades se concentram em três tipos de encontro: a reunião aberta, a qual a FOLHA acompanhou, com testemunhos e trocas de experiências; a fechada, também chamada de alívio de pressão; e o acompanhamento individual, em que os integrantes recebem noções de educação financeira e aprendem a lidar com planilhas de gastos.
"Estamos filiados à ONG norte-americana Debtors Anonymous (sigla em inglês para Devedores Anônimos), que tem sede em Nova York. Mais de 18 países têm grupos filiados e nós estamos lá. É uma vitória, porque andamos sobre pedras. No começo não foi fácil", comenta Roberto, dizendo ter sofrido pressão de muitos paroquianos para que mudasse o nome do grupo para Compradores Compulsivos (C.C.). "O Devedores Anônimos é uma sigla internacional, igual ao Alcoólicos Anônimos, até porque a compulsão de endividamento tem a ver com o alcoolismo. A oneomania tem características idênticas ao alcoolismo, porque sem beber álcool e consumir droga o oneomaníaco sai dos trilhos. Deveria ser tratado como um problema de saúde pública", defende. Casado, pai de dois filhos, Roberto se descobriu um comprador compulsivo ainda jovem, quando passou a comprar livros que jamais chegou a ler. Reservava fascículos e coleções nas bancas para ampliar o estoque.
A reunião tem início com apenas quatro participantes. Depois é que chega mais um. E acaba impreterivelmente às 20h30. Entre testemunhos, há momentos de reflexão e de orações, como a da serenidade, em que os devedores anônimos pedem solvência e prosperidade. O autônomo Carlos (nome fictício) conta que chegou à falência quando procurou o D.A., há 11 anos. "Esse grupo era minha única luz, eu não tinha outra saída. Minha família se esfacelou e precisei de tempo para me recuperar. Achei um jeito de ter renda e fui atrás. Hoje, uso cartões de crédito, mas ao final do mês estão todos pagos. Estou muito feliz por ter reencontrado meu espaço", diz.
O metalúrgico Horácio (nome fictício), de 79 anos, viu sua vida financeira ruir quando assumiu a microempresa de um amigo. Era 1998, véspera da crise cambial que sacudiu a estabilidade do ainda neófito Plano Real. "O preço da matéria-prima subiu demais e fiquei endividado. Cheguei ao fundo do poço. Foi difícil me recuperar porque não tinha capital de giro", recorda. Quando decidiu procurar o grupo dos Devedores Anônimos de Londrina, ele tinha três empréstimos consignados por vencer e um punhado de agiotas em sua cola. "Minha ajuda veio aqui. Peguei um caderno, anotei tudo o que iria gastar e cortei o que era supérfluo. Graças a Deus fui acertando as dívidas", conta o idoso, que continua frequentando as reuniões do D.A. para, segundo ele, ajudar pessoas que se atolam em dívidas por não conseguir conter o consumo compulsivo. "Aqui já entrou gente chorando, gente devendo mais de R$ 1 milhão. Eu já consegui evitar o suicídio de três pessoas", garante.
Já são 21 horas quando Roberto deixa a Catedral ciente de que o grupo do D.A. ainda tem muito a fazer. "O grupo é muito bom porque nos proporciona o reconhecimento dos vícios financeiros e os meios para evitá-los, além da questão da educação financeira. É preciso saber ganhar dinheiro e gastar, mas saber economizar e investir", diz ele, que mesmo com as dívidas controladas se considera um comprador compulsivo em recuperação. (D.P.)





