No último dia 23 de abril, ressurgiu na Europa o temor de que o vírus causador da febre aftosa poderia se alastrar entre os humanos. Um homem, cuja identidade não foi divulgada, que trabalha num matadouro no noroeste da Inglaterra pode ter contraído a doença de animais infectados.
A febre aftosa é uma zoonose (doença transmissível de outros animais vertebrados ao homem, e vice-versa, sob condições naturais) conhecida desde 1514, ano em que foi descrita pela primeira vez. O vírus causador da doença foi isolado em 1898 e, desde então, foi comprovado pelo menos 32 casos de sintomas da doença no homem. No Brasil, jamais foi descrito casos de pessoas que tenham desenvolvido a virose.
O professor-doutor em virologia animal do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Amauri Alfieri, esclarece que a contaminação de humanos se dá de maneira quase que ‘‘acidental’’. ‘‘A doença só ocorre em seres humanos em casos extremamente esporádicos’’, tranquiliza o especialista.
O professor frisa que o grande problema é que o vírus é de alta e muito fácil transmissividade. Ele mantém-se suspenso no ar e pode viajar em grãos de poeira, pneus de automóveis, sapatos, roupas, e muitos outros ‘‘veículos’’. Entretanto, quando exposto a altas temperaturas o vírus é pouco resistente.
De acordo com ele, são basicamente três as situações que oferecem riscos de contaminação ao homem: nos casos em que a pessoa estabelece um contato direto, continuado e excessivo com o vírus e dá-se, então, uma supercontaminação. Se essa pessoa tiver problemas imunológicos ou estiver com a imunidade baixa, o perigo aumenta, pois o vírus aproveita essa oportunidade para atacar. Uma terceira via de contaminação é nos laboratórios, durante o trabalho de manipulação de amostras infectadas - a grande maioria dos doentes se infectaram dessa maneira. A possibilidade de contaminação por ingestão de carne cozida é quase zero.
Ele explica que o trabalhador inglês, caso fique comprovada que ele tenha o vírus, deve ter sido contaminado porque ficou exposto a uma quantidade excessiva de vírus, no trato prolongado com animais doentes. Se houver a confirmação da contaminação, ele será a segunda vítima humana da febre aftosa na Inglaterra. O primeiro caso foi registrado em 1966.
Alfieri lembra que a contaminação do rebanho inglês, e posteriormente, dos rebanhos de outros países europeus, se deu por vírus provenientes da Índia. Como os hindus não têm o costume de cozinhar a carne antes de comer, o vírus, provavelmente, conseguiu ‘‘viajar’’ em embutidos levados para a Europa.
Como a doença é a mesma, tanto em animais quanto em humanos, os sintomas também são os mesmos. Aparecem aftas, vesículas e bolhas d‘água, principalmente na boca, língua, gengivas e palato. Eventualmente, essas ‘‘feridas’’ se manifestam também na palma das mãos e na sola dos pés. Já foram relatadas situações febris. Alfieri destaca que a manifestação da doença é muito semelhante às estomatites, bolhas que surgem justamente quando a resistência imunológica do organismo está debilitada. O tratamento é sintomático, ou seja, não se combate o vírus que transmite a doença mas os sintomas que ele provoca.
O animal, por exemplo, não morre propriamente por causa do vírus da febre aftosa. Como aparecem muitas feridas no epitélio lingual - camada de pele que reveste a língua - o animal deixa de se alimentar. Também deixa de se movimentar, pois o casco fica muito comprometido e extremamente dolorido por causa das bolhas. Ele vai definhando até morrer por subnutrição.

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