Rio- O ex-traficante José Carlos dos Reis Encina, 48 anos, o Escadinha, foi assassinado com dois tiros no rosto na manhã de ontem, na Avenida Brasil, uma das principais vias de acesso ao Rio. Um dos fundadores da facção criminosa Comando Vermelho, Escadinha tornou-se famoso ao fugir de helicóptero do presídio da Ilha Grande (litoral sul fluminense) em 1985. Estava sendo investigado sob a suspeita de associação com o tráfico.
Escadinha tinha acabado de sair do presídio Plácido Sá Carvalho, em Bangu (zona oeste), onde cumpria pena em regime semi-aberto havia cinco anos. Condenado a 51 anos de prisão, tinha passado 18 anos consecutivos na cadeia, desde quando foi recapturado de sua última fuga.
O Vectra que dirigia foi fechado por uma motocicleta por volta das 7h30. Dois homens armados de fuzis desceram do veículo e fizeram os disparos. Luciano da Silva Wanderley, 30, que estava no banco do carona, também foi morto. Assim como Escadinha, vivia em regime semi-aberto, no mesmo presídio.
Segundo a Polícia Civil, o principal suspeito do crime é Mário Frazão Gomes, um dos sócios de Escadinha na cooperativa de táxis Rio Elite Service.
Condenado a 51 anos por tráfico, associação para o tráfico, roubo, formação de quadrilha e outros crimes, Escadinha dominou durante muito tempo o tráfico no morro do Juramento (Vicente de Carvalho, zona norte), dominado pela ADA (Amigo dos Amigos). Foi preso pela primeira vez em 1982.
De acordo com a inspetora Marina Maggessi, da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública, Escadinha e o sócio se desentenderam depois que a polícia descobriu que a cooperativa estava fornecendo radiotransmissores Nextel a traficantes da facção criminosa CV (Comando Vermelho), que é rival da ADA.
Maggessi afirmou que, entre 2003 e este ano, a polícia apreendeu 17 aparelhos Nextel em presídios de Bangu e no complexo de favelas do Alemão. Os rádios, segundo ela, estavam em nome da cooperativa, o que levantou a suspeita de que Escadinha estaria se associando ao tráfico.
Gomes e Escadinha foram chamados para prestar depoimento em maio. Durante a audiência, segundo Magessi, o traficante se mostrou aborrecido ao descobrir que os rádios estavam indo parar nas mãos de traficantes e discutiu asperamente com o sócio.
Maggessi informou que os rádios foram usados por vários traficantes do CV, entre eles Marcos Santana dos Santos, chefe do tráfico no complexo de favelas do Alemão, e Eduíno Eustáquio de Araújo Filho, o Dudu, que comandou a invasão à favela da Rocinha na Semana Santa.
De acordo com o Núcleo de Inteligência da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária, Escadinha teria comprado pelo menos 200 aparelhos Nextel.
Segundo a policial, há informações de que Gomes estaria tentando formar uma nova cooperativa de táxis. Maggessi afirmou não ter informações de que Escadinha teria retornado ao tráfico de drogas no Juramento, mas não descartou a possibilidade de ele ter sido morto em virtude de uma guerra entre facções criminosas. O seu reduto é dominado pela ADA e ele estaria fornecendo rádios para o CV, sua antiga facção.
A inspetora disse que, logo quando passou para o regime semi-aberto em 1999, Escadinha procurou traficantes do morro do Juramento para pedir dinheiro. Segundo ela, os criminosos afirmaram que só lhe dariam a quantia se ele voltasse a comandar o morro. Do contrário, só continuaria recebendo uma ''mesada'' como preso. Escadinha não teria aceito a proposta.
Depois que foi para o regime semi-aberto, o traficante tentou desfazer a imagem de criminoso. Virou cantor de rap, se tornou evangélico, abriu creche e chegou a ser convidado para trabalhar no gabinete do então deputado estadual Mário Luiz (PMDB) em 2000.

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