Buenos Aires, 17 (AE) - O candidato presidencial peronista às eleições argentinas, Eduardo Duhalde, assumiu um discurso protecionista e conclamou os argentinos a verificar a etiqueta de origem nas embalagens e consumir produtos nacionais em vez dos produzidos em outros países.
"Toda vez que compramos um produto que não é fabricado na Argentina, estamos ajudando outros países a enfrentar seus problemas de desemprego, mas não resolvendo o problema de falta de trabalho na Argentina", disse Duhalde durante o principal comício de sua campanha realizado na madrugada do domingo, que não contou com a presença do presidente Carlos Menem, que preferiu ficar em Mar del Plata. Seu nome, por sinal, só foi citado uma vez no comício, durante o discurso do governador da Província de Córdoba, José Manuel de la Sota.
Claramente protecionista, a conclamação de Duhalde fere a natureza do Mercosul e difere da proposta que vem sendo defendida por ele, de fortalecimento do bloco comercial. Numa alusão ao Fundo Monetário Internacional (FMI), Duhalde afirmou que "basta de ajustes, acabaram-se os ajustes" para uma platéia estimada em 50 mil pessoas.
O comando da campanha de Duhalde escolheu o local e a data de maior apelo para o peronismo, o chamado Dia da Lealdade, 17 de outubro, para impulsionar sua candidatura e tentar evitar que o peronismo sofra sua maior derrota eleitoral da história política argentina. Naquela data, em 1945, a população mais pobre do país, incentivada pelos sindicatos, lotou a Plaza de Mayo para pedir a libertação de Juan Domingo Perón, preso pelos militares.
No comício, os nomes de Perón e Evita foram constantemente citados, enquanto o hino peronista era tocado e imagens dos dois líderes - e mitos - da história argentina eram projetadas em sete telões espalhados na frente da Casa Rosada, sede do governo, que mudava de cor, passando do amarelo ao verde e do rosa claro ao rosa- choque. Para compor o clima de comoção, não faltaram fogos de artifício e gritos de "viva Perón, viva Evita", e, é claro, "viva Duhalde".
As imagens das manifestações comandadas por Perón e Evita no passado, contudo, mostram a diferença com o momento atual do peronismo: uma cerca de proteção deixou o grande público cerca de 50 metros longe do palanque e 2 mil policiais e outros 300 seguranças contratados protegiam a manifestação.
As pesquisas de opinião indicam que Duhalde conta com 35% dos votos. Se o resultado das urnas confirmar as pesquisas, a derrota será maior que a sofrida para Raúl Alfonsín em 1983, quando o peronismo fez 42% dos votos válidos. Além da derrota na campanha presidencial, um desempenho como o sugerido pelas pesquisas também questiona o futuro do peronismo e de suas lideranças. Na avaliação de analistas políticos, o justicialismo pode perder até na Província de Buenos Aires, que era governada por Duhalde.
Para Renato Bacmann, do Centro de Estudos da Opinião Pública (Ceop), se o justicialismo fizer apenas 35% dos votos presidenciais, a derrota será não apenas de Duhalde, mas também de Menem. Os dois, aliás, não se estão entendendo desde o início da campanha. Menem ficou de fora vários meses, depois os dois se aproximaram e agora, na reta final, voltaram a manifestar desentendimentos.

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