Buenos Aires, 26 (AE) - "Sabia que perderia desde o momento em que comecei a campanha". A declaração feita por Eduardo Duhalde, o candidato derrotado à presidência do país pelo Partido Peronista, o partido do governo, foi o início de uma série de reclamações que tem como alvo principal o presidente Carlos Menem.
"Desde o começo, desde a presidência, só me colocaram pedras no caminho...tudo foi cheio de dificuldades", disse. O presidente é seu principal inimigo dentro do partido, e é acusado por Duhalde como responsável por sua derrota, a pior da história do peronismo.
Duhalde obteve 38% dos votos, enquanto que Fernando De la Rúa, candidato da coalizão de oposição Aliança UCR-Frepaso venceu com 48%.
Analistas e integrantes do próprio partido consideram que Menem fez o possível para que Duhalde fosse derrotado. Para "El Turco", como o presidente é denominado popularmente, seria a única forma de permanecer líder do partido e assim lançar-se candidato às eleições de 2003.
Hoje de manhã, paredes em Buenos Aires apareceram cobertas por cartazes com os dizeres "De la Rúa presidente - Menem o fez", em irônica analogia à recente publicidade que com o slogan "Menem o fez", mostrava as obras públicas realizadas pelo presidente.
Analisando sua candidatura, Duhalde disse que "a situação favorecia De la Rúa. Ainda que eu tivesse feito as coisas melhor, nada teria sido diferente. De la Rúa simbolizou a mudança".
Duhalde sustentou que em agosto, vendo a derrota se aproximar, ofereceu a candidatura ao ex-piloto de Fórmula Um Carlos Reutemann, que havia conseguido uma impactante vitória para o governo da província de Santa Fé. Assessores de Reutemann confirmaram a história, e afirmaram que o ex-piloto quase aceitou. "Mas era muito em cima da hora", explicaram.
Na época chegou-se a especular colocar como vice na chapa o ex- ministro da Economia Domingo Cavallo. Essa dupla teria sido invencível, sustenta o think tank Rosendo Fraga.
"Minha diferença com Menem é que eu queria que o peronismo ganhasse. Minha intenção não é um projeto pessoal", disse Duhalde, que também afirmou que ele e Menem "pertencemos ao século que termina" e que "não deve-se impedir o suegimento de novas lideranças".
Disse que não havia possibilidade de reunião com Menem e comentou que durante os primeiros 45 anos de sua vida não o conheceu pessoalmente: "nesse período o peronismo viveu seus melhores tempos".
Duhalde indicou que "há três novas grandes figuras no peronismo", e citou Carlos Reutemann, governador de Santa Fé; José de la Sota, governador de Córdoba; e Carlos Ruckauf, governador recém-eleito de Buenos Aires, que sucederá Duhalde.
As declarações de Duhalde surgiram pouco depois que Menem afirmasse que se houvesse sido candidato, teria vencido nas eleições de domingo.
Com sua costumeira ironia, Menem comentou que nas eleições para governador venceram os peronistas, mas que não havia sido assim na eleição presidencial.
Duhalde não ficou quieto: "Se Menem tivesse sido candidato, o resultado teria sido ainda pior. Um desastre eleitoral".
Segundo Duhalde, "Menem tem uma mania doentia pelo poder" e afirmou que "nunca mais o peronismo irá servir a um projeto pessoal".
Não se sabe como Duhalde poderá reagir nos próximos meses. A biógrafa não-autorizada de Menem, a jornalista Olga Wornat, disse à AE que o governador possui uma relação de amor e ódio com o presidente.
Segundo ela, Duhalde admira Menem, e se sente inferior em relação a ele: "Gostaria de ser como ele, extrovertido...eu sou assim, sem carisma", lamentou Duhalde a Wornat. A jornalista disse que Duhalde foi constantemente humilhado por Menem: "Um dia, há cinco anos, Menem ligou para Duhalde, e disse-lhe que viesse à Olivos jogar tênis. Duhalde foi, e quando chegou encontrou Menem em um impecável terno. Junto com ele, estavam as principais lideranças da oposição, todos de terno. Foi o dia em que acertou-se o Pacto de Olivos, o evento mais importante da década. E Duhalde estava de moleton e tênis, segurando uma patética raquete na mão...".
Como consolo à derrota, foi divulgada hoje a contagem de votos nas bases argentinas na Antártida: o peronista venceu ali, com 92 votos (62%), enquanto que o segundo colocado foi Cavallo, com 33 votos, e De La Rúa, com 23 votos. A explicação dos analistas é que os eleitores, básicamente militares, temem que a Aliança, que possui destacados políticos defensores dos direitos humanos, queira reabrir os casos de crimes da Ditadura.
Segundo dados oficiais, a Aliança UCR-Frepaso terá 125 parlamentares na Câmara de Deputados, o peronismo contará com 101 deputados, o "Ação pela República" (partido do ex-ministro Cavallo) conseguiu 12, e outros partidos, 19 deputados. São necessários 129 deputados para se ter quorum próprio, e faltam 5 para que a Aliança possa consegui-lo.
Logo após a eleição temeu-se que por não ter maioria, seria difícil a governabilidade da presidência De la Rúa, mas integrantes da Aliança explicaram que a maioria será conseguida com os aliados que possuem nos partidos provinciais. A imensa proporção de governadores peronistas (14) contra os escassos governadores aliancistas (8) também preocupa.
Para complicar, os peronistas dominam as maiores províncias. Mas as mesmas fontes disseram à AE que De la Rúa os terá controlados: as províncias estão quase falidas, e precisam desesperadamente da ajuda que só o governo central pode conceder.
A formação do gabinete é outra das grandes expectativas: nenhum integrante está definido, mas especula-se que Graciela Fernández Meijide, candidata derrotada da Aliança na província de Buenos Aires, poderia ser ministra da Educação. O ex-presidente Raúl Alfonsín terá um lugar de destaque, mas não dentro do governo: ele voltará a ser presidente da UCR no dia 3 de dezembro.
Para o bispo e presidente da Cáritas argentina, monsenhor Rafael Rey, o resultado da eleição de domingo "nós dá uma forte esperança que exista uma preocupação com o lado social". Segundo o influente bispo, "a derrota do peronismo está ligada à corrupção que havia no poder e à pobreza, enquanto que Menem falava das grandezas do país sem levar em conta que temos 13 milhões de pobres".

mockup