DUAS VEZES MÃES
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sexta-feira, 12 de maio de 2006
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
Curitiba- A rotina da dona-de-casa Juliane Pereira, de 35 anos, é corrida. Com oito filhos para criar, sete deles com idades entre dois e oito anos, a mão-de-obra para dar conta da criançada ganha proporções fora do comum. Na hora do almoço, por exemplo, vai para a panela, diariamente, um quilo de arroz, um de feijão, dois de carne, fora verduras e frutas, que segundo ela, os pimpolhos ''gostam bastante''. Para quem já teve 17 filhos, Juliana tira a criação dessa turminha de letra. Afinal a ''profissão'' dela também é extrordinária: mãe social. Juliana e seu marido, assim como outros 15 casais, são pais sociais da ONG Associação Cristã de Assistência Social (Acridas).
''Ser mãe social é ser mãe duas vezes. Digo isso porque gostar dos filhos biológicos é algo natural, instintivo. Mas amar aqueles que vieram de um situação de risco social e pessoal, que trazem problemas emocionais e testam nossos limites o tempo todo não é para qualquer uma'', defende a assistente social da Acridas, Regina Natália Mendes.
A assistente se refere às crianças vítimas de abandono, negligência ou violência que são retiradas das famílias pelo conselho tutelar e juizado e acolhidas pela instituição. Ao contrário do tratamento uniforme dado em orfanatos, no Acridas as crianças recebem cuidados individuais, que só são possíveis através do convívio familiar.
''É importante para o desenvolvimento da criança, se vir a ser adotada, porque ela terá uma adaptação mais fácil com sua nova família, além de levar valores que só são adquiridos nessa convivência. Dá uma tranquilidade aos pais adotivos'', explica Regina Mendes. ''As crianças com faixa etária acima de cinco anos têm poucas chances de serem reintegradas as suas famílias de origem e também de serem adotadas, principalmente, nos casos que são três ou quatro irmãos. As adoções tardias são feitas por estrangeiros, brasileiros ainda têm um certo preconceito'', avalia a assistente social.
No Acridas existem 16 casas-lares (em condomínios) e cada casal pode ter até no máximo seis filhos acolhidos, fora os biológicos. A mãe, funcionária contratada da instituição cuida da casa, o pai trabalha fora e as crianças estudam normalmente. Fundada há 22 anos, a entidade oferece uma equipe de apoio multidisciplinar (psicólogos, assistentes sociais e psicopedagogas). No total são atendidas 122 crianças, com idades entre zero e 18 anos. ''Elas têm uma vida normal, aliás, até um pouco mais agitada porque, no período da tarde, fazem esportes e aulas de informática'', informa o diretor-executivo do Acridas, o pastor Manfred Shwalb.
Existem pré-requisitos para se tornar uma mãe social. Além de ter casamento estável, a idade mínima de 25 anos e seguir princípios cristãos, a candidata deve passar por uma seleção e capacitações para a função. ''É igual a uma gestação. Quando fiquei sabendo que eles iriam chegar, fiquei imaginando como seriam os rostinhos e os temperamentos'', disse Geisa Soares da Silva, 26 anos, natural de Roraima e mãe de seis acolhidos e dois biológicos, com idades entre seis e 14 anos.


