Rio, 15 (AE) - Uma pesquisa realizada pela Secretaria de Estado de Justiça do Rio mostra que os jovens da classe média que entram para o mundo do crime são motivados pelo desejo de consumo de bens e o uso de drogas. De acordo com os resultados de questionários aplicados a 300 presos do sistema penitenciário no ano passado, 18% foram condenados por tráfico de entorpecentes. Do total, 15% disseram que foram criados em boas condições materiais e 25% possuem casa própria.
Embora a amostragem tenha sido pequena (apenas 2% dos 14 mil presos que compõem a população carcerária do Estado), os pesquisadores acreditam que os números apontam para um aumento da criminalidade na classe média. "Caiu por terra aquela velha idéia de que na cadeia só tem pobre e analfabeto", disse o superintendente de Saúde do Departamento de Sistema Penitenciário (Desipe), Edison Biondi. Os critérios usados para definir o conceito de classe média foram: ter 2º grau (ainda que incompleto), ter sido sustentado pelos pais e ter sido criado com relativo conforto.
De acordo com o relatório dos pesquisadores, o envolvimento com álcool e drogas (especialmente maconha e cocaína) levam jovens com estrutura familiar sólida e escolaridade média a cometer crimes. "Essas pessoas recebem apoio dos familiares, mesmo quando já estão na prisão, e, por isso, não podem alegar problemas de falta de afetividade", disse Biondi.
Ambiente - Na opinião do psiquiatra Flávio Barbirato, especializado em jovens e chefe do setor de neuropsiquiatria infanto-juvenil da Santa Casa de Misericórdia, o poder aquisitivo da família não é decisivo para a formação do caráter da pessoa. "O jovem violento não é necessariamente proveniente de famílias pobres, e sim de um ambiente permissivo", disse.
"Vejo muita gente de classe mais alta que se preocupa muito mais com a própria vida do que com a formação do filho, que acaba procurando na rua o que não recebe dentro de casa", afirmou o psiquiatra. Apenas 2 dos 300 entrevistados disseram que foram presos por serem pobres ou moradores de favelas. Vinte e quatro disseram que o crime foi forjado.
Duas equipes do Desipe - formadas por psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais - aplicaram as 75 perguntas do questionário de setembro a dezembro de 1999. De forma aleatória, foram escolhidas pessoas que deram entrada no Presídio Ary Franco, na zona norte - 35% com idade entre 18 e 24 anos. A secretaria pretende ampliar o trabalho - que faz parte do Plano Individualizado de Tratamento Penitenciário - a todos os recém-condenados.

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