Droga põe jovem de classe média do Rio no crime
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sábado, 27 de novembro de 1999
por Andreia Maia 
Rio, 27 (AE) - A cada dia, cresce a participação de jovens da classe média em diferentes crimes - assaltos, roubos, tráfico de drogas e homicídios, no Rio. Psicólogos, sociólogos e autoridades enumeram possíveis fatores responsáveis por essa situação: omissão da família, a perda do poder aquisitivo, a violência dos programas de televisão, dos filmes e o aumento do consumismo neste fim de século. Na semana passada, um universitário, de 26 anos, e um estudante, de 15 anos, ambos de família de classe média, foram presos depois de praticar um assalto.
"Os garotos da classe baixa têm uma justificativa social, mas esses rapazes da classe média não têm esse motivo e não existe uma única razão para atitudes assim", analisou o juiz da 2.ª Vara da Infância e da Juventude do Rio, Guaraci Campos. Ele afirmou que julgou, recentemente, cinco adolescentes pertencentes à classe média - entre 16 e 17 anos - por assalto à mão armada. Todos eles estão presos no Educandário Santo Expedito, no centro da cidade. "Os garotos estudavam no mesmo colégio e se juntaram para assaltar um taxista", relatou Guaraci Campos. Para ele, a maior parte dos jovens comete crimes por causa de drogas - seja uso ou tráfico.
Horror - Campos lembra que o caso mais escabroso e um dos primeiros em que atuou na 2.ª Vara ocorreu em 1997. Foi a história de um jovem de classe média alta, que tinha carro importado e morava no Recreio dos Bandeirantes, um bairro da zona oeste. O rapaz flagrou a namorada com o outro. Revoltado, ele e mais cinco amigos tentaram estuprar a moça, que conseguiu escapar.
Depois, o rapaz pegou o rival, colocou-o no porta-malas de um carro e incendiou o veículo. O jovem morreu carbonizado e o namorado traído foi condenado a ficar preso até os 21 anos de idade. Ele, no entanto, conseguiu a progressão de pena e hoje cumpre sua sentença em regime semi-aberto. "Alguns desses jovens alegam omissão dos pais enquanto outros passaram por uma queda do padrão de vida, mas mantêm as mesmas amizades e querem sustentar as aparências", explica o juiz.
Guaraci Campos afirmou que o Juizado de Menores oferece um curso destinado aos pais, com psicólogos e assistentes, no qual são discutidas as infrações cometidas por jovens, entre elas tráfico, assalto e roubo. "Mas a classe média não adere aos cursos", frisou.
O sociólogo e coordenador de Segurança Pública do Rio, Luiz Eduardo Soares, também concorda que não há uma "associação unilateral" entre miséria e crime. "Estamos num nível de violência psicovoluntária que não depende de condições sociais"
analisou o sociólogo.
O secretário exemplificou a análise citando a prisão do universitário Carlos Eduardo Freitas Ribeiro, de 26 anos, após assalto a um posto de gasolina da Petrobrás, no bairro da Piedade, na zona norte, para pagar uma dívida de R$ 41,00 com traficantes de uma favela do Rio.
O universitário, aluno do curso de química da Faculdade Souza Marques, em Campinho, na zona norte, confessou o crime e disse que roubava para comprar drogas. Para a diretora do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Atenção ao Uso de Drogas da Universidade Estadual do Rio (Uerj), Maria Thereza Aquino, a ligação de jovens de classe média com crimes demonstra a banalização dos valores. "Eles têm acesso a bons colégios e, mesmo assim, não assimilam valores éticos", afirma Thereza. "Hoje, os jovens perderam a noção do que é certo ou errado."
Influência - Já a psicanalista Margareth Biachini, coordenadora de uma Cooperativa de Psicólogos do Rio, destacou o consumismo e as cenas de violência que passam diariamente nos filmes, nas novelas e nos programas de televisão como uma das causas para entender os crimes praticados por jovens de classe média. "Esses produtos vendem a ilusão de que é fácil roubar e são bem-sucedidos aqueles que têm carros e roupas caras", ressalta Margareth. "Portanto, esses jovens acham que podem tudo, porque têm tudo e são os donos da lei", observa.
A busca de ação, como nos filmes, teria sido, talvez, o motivo que levou um menino de 15 anos, filho de um pediatra, a assaltar o motorista de táxi Jorge Garcia Torres, de 50 anos, em Botafogo, na zona sul. Ele e mais dois colegas pegaram o táxi em Copacabana para uma corrida até o bairro do Flamengo, na zona sul. No trajeto, o trio pôs uma faca no pescoço de Torres e tentou roubar R$ 88,00 mas acabou perseguido por outro táxi.
O filho do pediatra está preso no Instituto Padre Severino, uma instituição para menores infratores, na zona norte
mas os dois colegas conseguiram escapar.
Em junho, uma briga em frente do restaurante Espírito do Chopp, na Cobal do Humaitá - frequentado por jovens e universitários de classe média - no bairro de Botafogo, na zona sul, resultou na morte de Marcel Massaro, de 15 anos, estudante de classe média alta. Na época, os gêmeos Fábio e Felipe Noroes, de 18 anos - alunos de um curso técnico - foram presos, acusados pelo crime. Felipe já havia passado pela polícia por receptação de carro roubado.


