Droga contra o alcoolismo chega ao País
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de janeiro de 1999
Cleide Cavalcante Agência Estado 
Na próxima segunda-feira, o Brasil terá um novo remédio para o tratamento da dependência alcoólica. É o ReVia, já aprovado pelo Food and Drug Administration (FDA) - órgão dos Estados Unidos que controla o lançamento de marcas de alimentos e remédios -, e pelo Ministério da Saúde. O medicamento é fabricado pelo laboratório americano Dupont Pharma e será importado pelo Cristália Produtos Químicos Farmacêuticos Ltda, de São Paulo.
Esta é a primeira droga liberada pelo FDA nos últimos 40 anos, caracterizando um grande passo no tratamento de viciados. Estudos realizados até agora por especialistas americanos, comprovaram a eficácia da droga quando utilizada apropriadamente, revela o psiquiatra e especialista no assunto Ronaldo Laranjeira. De acordo com o médico, 10% da população brasileira é dependente do álcool.
Laranjeira explica que até hoje a medicina desconhecia como o álcool agia no cérebro e o quê provocava a dependência da bebida. Agora já se sabe que a ingestão do álcool faz com que o cérebro libere uma substância semelhante à morfina, chamada endorfina. Esta substância produz a sensação de prazer que as pessoas sentem ao ingerir bebidas alcoólicas e faz com que o indivíduo queira beber em quantidades crescentes até chegar à dependência, observa.
Jorge Afiune, assessor médico do Cristália, completa, explicando que o ReVia consegue bloquear os receptores da endorfina, agindo especificamente numa determinada região do cérebro. Desta forma, o dependente vai perdendo o desejo de beber, a fissura (termo que em inglês que significa craving) desesperada pela bebida é reduzida gradativamente. Esta é a grande propriedade do remédio, diminuir o craving, verifica.
Conforme Afiune, há uma série de doenças associadas ao vício em boa parte dos pacientes. É o caso da depressão, um dos principais fatores apontados como desencadeadores do alcoolismo. Na verdade, a medicina ainda não conseguiu avaliar exatamente o que vem primeiro. A bebida por causa da depressão ou a depressão por causa do vício. Este é um aspecto que ainda se estuda, afirma.
Com base nisso, a indicação primordial dos especialistas é que o ReVia (cujo princípio ativo é o cloridrato de naltrexona) seja administrado em conjunto com um tratamento psicoterapêutico. O objetivo agora não é estritamente uma estratégia farmacológica. O tratamento deve estar inserido num processo mais global, com suporte psicológico. O paciente deve pensar em reformular totalmente sua vida, mudando especialmente sua postura diante do álcool, destaca Laranjeira.
Embora seja um medicamento seguro, frisa Afiune, a contra-indicação é para portadores de hepatite e pessoas que estão utilizando remédios à base de ópio (analgésicos e morfina, por exemplo). Se o ReVia for ingerido junto com esta substância, poderá desencadear no organismo a síndrome da abstinência, ou seja, uma série de sinais de que o organismo apresenta em razão da falta do álcool, informa. E os efeitos colaterais, revela Laranjeira, são bastante sutis. Apenas 10% das pessoas pesquisadas sentiram algum tipo de efeito colateral, um pouco de náusea e dor de cabeça por exemplo.
Para Afiune, a grande novidade do ReVia é o fato dele não ser uma droga aversiva. Isto é, quando a pessoa o ingere, não sofre nenhuma reação orgânica, como taquicardia ou sensação de morte iminente. O último remédio liberado pelo FDA, há mais de 40 anos, tinha estes efeitos. Assim, a pessoa parava de beber por medo dos sintomas desencadeados. O ReVia não tem esta característica.
Laranjeira lembra que os estudos realizados nos Estados Unidos comprovaram que o medicamento realmente diminui a vontade de beber. O Brasil ainda não dispõe de pesquisas sobre a utilização do ReVia. De acordo com Laranjeira, a Escola Paulista de Medicina deverá dar início nos próximos meses a um trabalho neste sentido. O laboratório hoje conta com grupos de pesquisadores de pelo menos 10 centros brasileiros. São pessoas representativas dentro da comunidade médica que estudam a dependência de drogas. Além disso, existe uma série de outras instituições que deverão estar desenvolvendo em breve este protocolo formalmente, completa Afiune. Nos Estados Unidos, enfatiza, o índice de sucesso entre as pessoas estudadas foi de 65%.
O gerente de marketing do Cristália, Carlos Orlando Silva, informou à reportagem da Agência Estado que o primeiro lote de ReVia chega ao Brasil com 450 mil comprimidos. Incialmente, colocaremos no mercado embalagens com 30 e 50 comprimidos, adianta. Cerca de 30 mil farmácias irão comercializar a droga, a princípio nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Existe a perspectiva de fabricarmos o ReVia no Brasil, mas por enquanto, o Cristália apenas irá embalar os comprimidos, afirma Silva.
E quando a produção for nacional, a expectativa é de que o preço seja reduzido. O ReVia chegará às farmácias custando entre R$ 108,60 (preço de fábrica) e R$ 155,00, a caixa com 30 unidades; e de com 50 comprimidos, entre R$ 177,00 (preço de fábrica) e R$ 252,00. O consumidor deverá procurar o valor mais baixo, pois muitas farmácias dão descontos e algumas até vendem por preço de custo, anuncia Silva.
SERVIÇO
Ronaldo Laranjeira - Escola Paulista de Medicina
Tel: (011) 570.0640
Jorge Afiune
Tel: (011) 212.4544
Carlos Orlando Silva
Tel: (011) 212.4544
SINTOMAS
Como identificar um consumidor abusivo de álcool a partir dos sintomas:
- FÍSICOS: gastrite, pancreatite, hepatite, pressão alta, fraqueza nas pernas, quedas frequentes, convulsões semelhantes à ataques epiléticos, tremores pela manhã, entre outros.
- PSICOLÓGICOS: nervosismo, irritabilidade, insônia, falta de concentração, problemas com a memória, mentiras frequentes.
- SOCIAIS: perda de produtividade, faltas no trabalho - principalmente às segundas-feiras - brigas frequentes com familiares e amigos, gastos excessivos, perda da responsabilidade em relação à família etc.
Tratamentos gratuitos em São Paulo:
UNIADE - EPM


