Droga combate problemas cardíacos em pessoas negras
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terça-feira, 13 de março de 2001
Salvador Nogueira Agência Folha De São Paulo 
Embora a ocorrência de várias doenças se distribua de forma irregular entre as etnias, a indústria farmacêutica até hoje se mostrou indiferente a esse detalhe. Agora, o status quo parece estar mudando, e o pontapé inicial deve ser dado por um novo medicamento, voltado para o combate de problemas cardíacos em negros.
A nova droga - chamada BiDil - está a um passo de obter autorização da FDA (agência que regula medicamentos nos EUA) para ser comercializada. Os últimos testes começarão no mês que vem e devem durar um ano. Podemos já ter a autorização no fim de 2002, disse Jay Cohn, o cardiologista da Universidade de Minnesota que criou a droga.
Negros estão mais sujeitos que caucasianos a hipertensão e paradas cardíacas principalmente por deficiência de óxido nítrico, segundo Cohn. Essa substância age no organismo como um vasodilatador, baixando a pressão.
O óxido também é necessário ao funcionamento de outros medicamentos comuns usados contra pressão alta - os inibidores de ECA (enzima de conversão da angiotensina). Essas enzimas são responsáveis pela constrição (compressão) dos vasos sanguíneos, o que ocasiona hipertensão.
Os inibidores suprimem a ação das enzimas, mantendo a pressão sob controle -mas só quando há óxido nítrico disponível.
O BiDil é classificado justamente como um doador de óxido nítrico. Ou seja, ele se propõe a dilatar os vasos, fornecendo o óxido nítrico necessário. Os testes de Cohn, que trabalha na droga desde 1980, mostram que os negros reagem melhor ao BiDil, enquanto brancos apresentam melhores resultados ao usar os inibidores.
A droga prolongou a vida entre os negros, mas não ofereceu benefício significativo entre os caucasianos, conta o cardiologista. Os testes foram feitos com grupos de 640 e 800 pessoas, dentre os quais 25% eram negros.
Mesmo assim, o número de pacientes envolvidos é pequeno para ser definitivo. É sem dúvida uma pista a ser seguida, mas não é conclusivo, afirma Antonio Carlos Carvalho, professor de cardiologia da Unifesp. Ele aponta que peculiaridades dos pacientes não relacionadas à etnia poderiam causar desvios nos resultados.
Aliás, a execução dos grandes testes para a posterior liberação da droga no mercado foi, por muito tempo, a maior dificuldade da pesquisa. Os primeiros testes foram financiados pelo governo federal, mas não havia recursos para grandes testes, diz Cohn.


