Drag-queen maltrapilha tenta traduzir revolta contra miséria
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de julho de 1997
Curitiba 
Marcelo AlmeidaReginaldo Sampaio: Não quero agredir, apenas deixar evidente minha indignação com o atual estado de coisasO público especializado em arte moderna pode pensar que se trata de uma instalação bizarra. E é. Suposição natural diante de um amontoado de lixo, recolhido especialmente para um protesto contra a miséria. Quem circula pela Rua XV fica na dúvida, sem entender direito a proposta do trabalho, afirma o ator Reginaldo Sampaio, 24 anos, vestido de drag queen maltrapilha. Parece que tudo precisa ser traduzido, comenta.
Sentado no banco do Calçadão, Sampaio busca a reação das pessoas com ironia: Ei, você, de cabelo comprido, mascando chiclete, não tem um centavo para me dar?. O rapaz cabeludo apenas balança a cabeça e sorri. Outra: Olha só a boca dessa mulher! Que surpresa, não?. A moça se irrita e vai embora. Não quero agredir, apenas deixar evidente minha indignação com o atual estado de coisas, desabafa o ator, um tanto frustrado pela repercussão de sua performance.
Ao observar o cenário - carrinho de supermercado com vassouras velhas, hélices de ventilador, garrafas vazias e trapos de todo tipo - à sua volta, Sampaio avisa que a performance é o início de um projeto sobre o tema. Haverá desdobramentos, provavelmente no sentido de montar um espetáculo mais produzido, pois vi que mostrar a miséria chama a atenção das pessoas, afirma, enquanto bebe refrigerante com o cuidado de esconder a marca impressa na latinha.
A miséria a que Sampaio se refere não é restrita às mazelas sociais, que considera agravadas pela péssima distribuição de renda do País. Homossexual assumido, ele bate duro no preconceito e revela: Participei, com muito orgulho, da 1ª Parada Gay Paranaense, realizada em Curitiba no dia 28 de junho. O ator foi um dos 200 gays que vibraram quando sandálias Rider foram cortadas em represália ao comercial de TV que supostamente ridiculariza os homossexuais. (D.J.)


