Marcelo AlmeidaReginaldo Sampaio: ‘‘Não quero agredir, apenas deixar evidente minha indignação com o atual estado de coisas’’O público especializado em arte moderna pode pensar que se trata de uma instalação bizarra. E é. Suposição natural diante de um amontoado de lixo, recolhido especialmente para um protesto contra a miséria. ‘‘Quem circula pela Rua XV fica na dúvida, sem entender direito a proposta do trabalho’’, afirma o ator Reginaldo Sampaio, 24 anos, vestido de drag queen maltrapilha. ‘‘Parece que tudo precisa ser traduzido’’, comenta.
Sentado no banco do Calçadão, Sampaio busca a reação das pessoas com ironia: ‘‘Ei, você, de cabelo comprido, mascando chiclete, não tem um centavo para me dar?’’. O rapaz cabeludo apenas balança a cabeça e sorri. Outra: ‘‘Olha só a boca dessa mulher! Que surpresa, não?’’. A moça se irrita e vai embora. ‘‘Não quero agredir, apenas deixar evidente minha indignação com o atual estado de coisas’’, desabafa o ator, um tanto frustrado pela repercussão de sua performance.
Ao observar o ‘cenário’ - carrinho de supermercado com vassouras velhas, hélices de ventilador, garrafas vazias e trapos de todo tipo - à sua volta, Sampaio avisa que a performance é o início de um projeto sobre o tema. ‘‘Haverá desdobramentos, provavelmente no sentido de montar um espetáculo mais produzido, pois vi que mostrar a miséria chama a atenção das pessoas’’, afirma, enquanto bebe refrigerante com o cuidado de esconder a marca impressa na latinha.
A ‘‘miséria’’ a que Sampaio se refere não é restrita às mazelas sociais, que considera agravadas pela péssima distribuição de renda do País. Homossexual assumido, ele bate duro no preconceito e revela: ‘‘Participei, com muito orgulho, da 1ª Parada Gay Paranaense, realizada em Curitiba no dia 28 de junho’’. O ator foi um dos 200 gays que vibraram quando sandálias Rider foram cortadas em represália ao comercial de TV que supostamente ridiculariza os homossexuais. (D.J.)

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