A mudança no currículo da graduação em enfermagem é a maior esperança do doutorando Francisco Arnoldo Nunes de Miranda para a melhoria da qualidade no serviço de saúde do Brasil. A diferença está no destaque dado à prevenção. Segundo ele, a tendência é privilegiar a manutenção da saúde e não apenas intervir quando ela está em crise.
Miranda também se especializa na área de saúde mental e psiquiatria na USP, em Ribeirão Preto. Ele veio de lá há dois anos para coordenar o curso de Enfermagem na Universidade Norte do Paraná (Unopar) em Arapongas. Formado em 1980 pela Universidade Federal do Ceará (UFC), ele afirma que a falta de mão-de-obra especializada é o principal motivo da diferença salarial entre as regiões do País. Em Rondônia, por exemplo, ele diz que o piso do enfermeiro varia de R$ 2 mil a R$ 2,5 mil enquanto que no Paraná ele gira em torno de R$ 1 mil. ‘‘A carência de profissionais também aumenta a autonomia daqueles que exercem a função. A verdade é que o enfermeiro não atua apenas dentro de estabelecimentos hospitalares. A proximidade com as pessoas resulta numa multiplicidade de papéis que inclui a complementação do trabalho do médico e o gerenciamento da assistência’’, comenta.
Casado com uma enfermeira, que tem doutorado em saúde coletiva, Miranda afirma que o aprimoramento profissional dá mais poder e liberdade de ação. Ele critica a definição do enfermeiro como um auxiliar do médico. ‘‘O trabalho de um complementa o do outro e por isso a subordinação é um equívoco que precisa ser desfeito’’.
A extinção legal do atendente é um dos resultados da política do Sistema Único de Saúde (SUS) que tem promovido de nível os hospitais que incentivam a profissionalização dos seus funcionários em favor da qualidade do serviço. Ao contrário do que muita gente pensa, ele afirma que em boa parte dos casos o atendimento nos estabelecimentos públicos é melhor do que nos particulares que ‘‘mais se parecem com hotéis’’. O vínculo com universidades, mais comum no setor público, é outro fator que favorece o paciente. ‘‘Muitos programas de saúde do governo só destinam verbas a quem tiver o compromisso com a pesquisa científica que, no caso da enfermagem, surgiu no Brasil há apenas 25 anos’’, disse o coordenador.
Apesar dos escândalos financeiros que envolveram a saúde nos últimos anos, Miranda é otimista em relação ao futuro e atribui isso ao processo de amadurecimento do País. (B.R.)

mockup