Doutora da resistência
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sexta-feira, 05 de maio de 2017
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 

Desde criança, a doutora em Educação Megg Rayara sentia que não estava representada nos ambientes escolares em que frequentava. Primeira travesti preta a conquistar o título de doutora no Brasil, não foi por acaso que a escolha do tema da pesquisa que lhe garantiu o doutoramento foi a investigação sobre as consequências do preconceito contra professores negros e integrantes da comunidade LGBT. Megg, que prefere usar o termo preta quando se refere a sua raça, esteve em Londrina para participar da Semana das Cores da UEL, organizada pelo coletivo de alunos que representa a comunidade LGBT na instituição.
A tese "O diabo em forma de gente: (r)existências de gays afeminados, viados e bichas pretas na educação" foi defendida no Departamento de Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde Megg atua como professora substituta. "Minha pesquisa é sobre professores negros homossexuais que estão em sala de aula e como o racismo e a homofobia interferem na docência deles", explicou ela, que também dá aulas de desenho na Fundação Cultural de Curitiba.
Megg defende que os educadores precisam empoderar as próprias existências através do posicionamento político. "Uso os termos bicha e viado de forma positiva, para desqualificar os detratores", conta ela. Acima de tudo, a pesquisa é uma denúncia. "Discuti a eliminação física e simbólica das nossas existências, inclusive na escola", explica.
A pesquisadora lembra que o corpo de alunos das escolas e universidades não é formado apenas por brancos heterossexuais e cisgêneros (pessoas cujo gênero é identificado com o sexo de nascença). "As crianças negras e LGBT também precisam de referência, mas as escolas não os enxergam. Isso resulta em expulsão, elas saem da escola porque não são aceitas", critica, destacando que as instituições precisam reconhecer que praticam a segregação dos múltiplos sujeitos que compõem o sistema educacional do País.

TRAJETÓRIA
As conclusões presentes na tese remetem também à própria experiência de Megg. Aos 6 anos de idade, ela já sabia que não era uma pessoa do gênero masculino. "Eu queria ter cabelo comprido porque achava que isso definia uma menina, mas minha mãe não deixava, então eu enrolava uma toalha de banho na cabeça para imitar uma peruca", conta.
Foi depois que entrou para a escola, porém, que a distinção entre os gêneros ficou mais marcada. "Tinha fila de meninos, banheiro separado e eu não me sentia à vontade. Não queria ser agressivo, jogar futebol ou matar passarinhos como os meninos... Não queria ter uma prática mais viril, mas ao mesmo tempo tinha que disfarçar para sofrer menos hostilidade", relembra.
À medida que não conseguia decifrar os códigos de masculinidade, porém, ela era colocada à margem, o que resultou em uma infância e adolescência muito solitárias. "Não ia para a escola junto com todo mundo porque tinha medo de agressão, não usava o banheiro porque sofri uma tentativa de ataque no intervalo e fiquei com medo. Era muito sozinha", reforça.
Sair de Cianorte (Noroeste) para cursar a faculdade em Curitiba foi a solução encontrada para buscar uma existência mais plena. Na capital, entretanto, ela conheceu também o racismo. "Em Curitiba o preconceito ficou mais visível e, ao mesmo tempo, eu precisava me sustentar e por isso sentia medo de expressar minha identidade feminina. Eu escondia essa identidade no trabalho e me montava em casa ou na noite. Era o que eu queria e à medida que fui me sentindo mais empoderada, a partir de vivências nos movimentos LGBT e negro e com uma formação acadêmica mais consistente, me senti em condições de expor a travestilidade de forma plena", conta.
O processo até assumir a identidade atual foi longo. Na faculdade, Megg usou o nome masculino por medo de não conseguir se formar. "As travestis estão fora do sistema de ensino e, além de tudo, eu precisava trabalhar para me sustentar, mas não queria ir para a área de estética ou prostituição", relata, destacando que sente-se em "dívida eterna" com as travestis que estão na prostituição justamente por terem chamado a atenção da sociedade para a existência dessa população. "Se consegui chegar ao doutorado, foi porque elas abriram caminho para que a identidade travesti fosse reconhecida e consolidada", elogia.
Quando entrou no mestrado, a documentação foi toda feita com o nome masculino. No doutorado, já com uma decisão judicial em mãos autorizando a adoção do nome social em todos os documentos, ela usou a identificação feminina. "Quero mudar o nome na minha dissertação no mestrado, assim como já fiz em todas as documentações. Tudo que eu consegui foi a Megg que construiu e nos momentos em que ela não apareceu foi apenas por estratégia de sobrevivência", diz.
A educadora lamenta o fato de ainda haver espaços onde travestis não são bem-vindas e, apesar de toda a trajetória de sucesso, enfrentar diariamente o desgaste de exigir que a tratem como uma pessoa do gênero feminino. "Me chamam de senhor, professor... Eu tenho que brigar para ser respeitada em minha existência plena. A única coisa do gênero masculino que tenho é meu órgão genital, mas o machismo é tão enraizado que isso passa a definir todo o resto", critica ela, que defende a resistência política como a maneira mais eficiente de combater o preconceito.

Mais diversidade no MST
Wagner de Souza é um agricultor assentado e integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no interior de São Paulo. Sua luta, porém, não é referente apenas ao direito à reforma agrária. Militante LGBT, ele também integra um coletivo que discute questões de gênero dentro do movimento social. Em Londrina para participar da Semana das Cores da UEL, Wagner contou sobre a experiência em um dos debates do evento.
"Defendemos a presença LGBT dentro do processo de reforma agrária popular", afirmou ele. O movimento, desde 2013, tem aberto debate sobre o tema, inclusive com a realização de eventos como o 1º Seminário de Diversidade Sexual do MST, em 2015, com presença de 33 pessoas.
As conquistas só aumentam. A diversidade sexual passou a ser obrigatória em todos os espaços do MST e muitas mudanças têm sido implementadas, como a proibição pelas normas do movimento - da distinção de idade, orientação sexual e identidade de gênero na natureza do MST, que deve também ser um movimento de homens e mulheres. "Nunca achei que veria esse dia chegar", comemora ele, ao recordar os 33 anos do MST.
Outro direito conquistado é o uso do nome social por travestis e transexuais tanto nas comunicações internas como oficiais do movimento. "A nossa luta não é só pela reforma agrária, mas por formas de relações humanas menos opressoras e territórios livres de discriminação." (C.A.)


