Londres - O médico britânico Harold Shipman, conhecido como ''doutor morte'', matou pelo menos 215 de seus pacientes, o que o converte no maior assassino da história da Grã-Bretanha, confirmou ontem a investigação oficial.
Shipman, de 56 anos, foi condenado à prisão perpétua em janeiro do ano 2000 pela morte de 15 pessoas com injeções letais de heroína, mas a última investigação oficial do caso, chefiada pela juíza Jane Smith, demonstrou que o número de vítimas foi maior.
Das 215 mortes confirmadas, 171 foram mulheres e 44 homens, de idades entre 41 e 93 anos. E a juíza teme que ainda possam aparecer outras 45 vítimas.
Ninguém jamais suspeitou que por trás da aparência de homem afável, barba branca e óculos de grau se escondia um dos maiores criminosos da história.
Segundo a investigação, sua primeira vítima, Eva Lyons, foi assassinada em março de 1975, em seu consultório de Todmorden, norte da Inglaterra. Os demais morreram em um centro médico de Hyde, perto de Manchester.
Em muitas ocasiões Harold Shipman visitava suas vítimas em casa, quando estavam sozinhas, e lhes aplicava uma overdose da droga. Em seguida voltava a seu consultório e expedia uma certidão de óbito por causas naturais. Poucas vezes houve autópsia.
Existem provas de que Shipman se drogava com petadina (droga do tipo da morfina utilizada para abrandar dores intensas) nos anos 70. Na época, o médico foi multado por receitar-se altas doses dessa droga. ''Acredita-se que é possível, sejam quais forem as razões que levaram Shipman à dependência de petadina, que estas o levaram também a outras formas de dependência'', afirmou a juíza. ''É possível que tenha sido um viciado em crime'', acrescentou.
Os cerca de mil familiares das vítimas foram informados sobre os resultados da investigação, o que lhes permitirá pedir uma indenização de aproximadamente três milhões de dólares. ''Ninguém que ler este relatório afirma Jane Smith ficará indiferente diante da magnitude dos crimes de Harold Shipman, nem deixará de sentir, como eu sinto, a mais profunda simpatia pelas vítimas e seus familiares''.
A advogada Ann Alexander, que representa várias das vítimas, disse hoje que ''a maioria dos familiares vai necessitar de tratamento'' para recuperar-se do trauma.
O relatório divulgado faz parte da primeira fase da investigação, que aprofundou as circunstâncias das mortes de 420 dos pacientes do ''doutor morte''. A segunda fase investigará por que os crimes e seu autor passaram despercebidos durante tanto tempo e que medidas devem ser tomadas para evitar que algo assim volte a acontecer. Elas certamente incluirão uma revisão do procedimento para expedir certidões de óbito e um maior controle sobre remédios que podem ser letais.
De fato, Harold Shipman, antes de começar sua série de macabros assassinatos, já havia sido demitido de um consultório em que trabalhava por aplicar altas doses de morfina em pacientes viciados.
Apesar desse antecedente, ele soube manter durante anos uma imagem de homem íntegro e respeitável, o que lhe possibilitou assassinar suas vítimas com absoluta impunidade.
O ''doutor morte'' ganhou o duvidoso título de maior assassino da história deste país, precedendo outros ''grandes'' como Thomas Hamilton, que em 1996 disparou à queima-roupa contra 16 alunos e seu professor em uma escola de Dunblane (Escócia).
Também ganhou do assassino da ''Casa dos Horrores'', Fred West, que matou 12 meninas em Gloucester, no oeste da Inglaterra. Supera, de longe, o famoso ''Jack o estripador'', o assassino ainda anônimo do bairro de Whitechapel, que ''só'' matou, em 1888, cinco prostitutas.

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