Imagine uma doença que causa dores em todo o corpo, por semanas ou meses a fio, e cuja causa não aparece em nenhum exame, o que faz com que os outros nem sempre acreditem que há dor. Parece um quadro de enlouquecer qualquer um, mas é uma doença, de difícil diagnóstico, chamada fibromialgia.
  A reumatologista Margarida Fernandes Carvalho, professora do departamento de pediatria da Universidade Estadual de Londrina (UEL), explica que a fibromialgia é uma síndrome que se caracteriza pela presença de dor músculo-esquelética por um período maior que três meses.
  A dor pode ser generalizada, por todo o corpo, ou localizada em pontos específicos - da cintura para cima ou da cintura para baixo, do lado esquerdo ou do lado direito do corpo. ‘‘Uma das características é que a dor sempre abrange pelo menos um dos segmentos da coluna - cervical, toráxica ou lombar’’, explica. A intensidade da dor é variável, de acordo com a sensibilidade de cada pessoa.
  Um dos indicativos para diagnosticar a doença são os ‘‘tender points’’ ou pontos dolorosos. Quem tem a doença, reage com dor quando se pressiona estes locais. Mas, para diagnosticar a fibromialgia, é preciso que o paciente tenha pelo menos 11 dos 18 pontos dolorosos.
  Outros sintomas da doença são inchaço nas articulações, formigamento e dormência nas mãos e nos pés, distúrbios do sono, distúrbios de memória e concentração, irritação, depressão e cansaço físico constante (veja quadro). ‘‘Muitos vão parar no hospital por causa do formigamento, achando que é um AVC (acidente vascular cerebral) ou um infarto’’, afirma.
  ‘‘São sintomas muito vagos’’, ressalta a reumatologista Evelin Goldenberg, professora da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp). Por isso, muitos doentes, mesmo depois de passar por diversos especialistas e exames, não conseguem detectar a verdadeira causa de seus problemas. Logo, se deprimem por não receber a devida atenção de médicos e familiares.
  ‘‘Como não aparece em exames, há quem ache que é ‘piripaque’, ou que o paciente é ‘neurótico’’, alerta Margarida. Além disso, o mal é pouco conhecido. Segundo Margarida, a fibromialgia só foi reconhecida como doença em 1981, ‘‘embora haja descrições desde 1824’’, e só passou a ser diagnosticada na década de 90.
  A ciência, aponta a reumatologista, ainda não explicou a causa da doença, que atinge até 5% da população adulta, principalmente as mulheres. 80% a 90% dos casos de fibromialgia são de mulheres na faixa etária dos 30 aos 60 anos. Mas, crianças, adolescentes e homens também podem ter a doença.
  Algumas situações podem desencadear ou agravar as crises - viroses, processos infecciosos virais ou bacterianos, traumas físicos, como acidentes de carro, e traumas emocionais, como separação, divórcio e morte de familiares. A fibromialgia ainda pode ser secundária, e aparecer junto com qualquer outra doença reumática ou com câncer.
  Evelin lembra que estresse e depressão podem impulsionar o desenvolvimento da fibromialgia, mas a doença também pode levar à depressão. Segundo ela, cerca de 50% das pessoas que tem fibromialgia acaba desenvolvendo depressão. ‘‘São doenças relacionadas com déficit de serotonina, substância que está ligada ao bem-estar, mas também é um analgésico produzido pelo próprio corpo’’, explica.
  As dores podem começar progressivamente ou de forma abrupta, e o paciente pode passar alguns períodos sem sintomas. Quanto antes for feito o diagnóstico, melhor. ‘‘Se a pessoa se trata nos seis primeiros meses é tranqüilo, mas se deixa para depois, eterniza’’, diz Margarida.

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