Donos de circo doam leões para salvar negócios
São Paulo, 21 (AE) - Depois que leões de circo atacaram e mataram há duas semanas um menino de 6 anos, em Jaboatão dos Guararapes, área metropolitana do Recife (PE), os circos do País estão em polvorosa. Além de despertar comoção e protestos de entidades de defesa de animais, o acidente causou forte reação que ameaça acabar com uma das mais tradicionais atrações circenses.
Novo alvo de discriminação, os leões têm sido proibidos de entrar em vários municípios. No dia 11, um vereador apresentou em Bauru projeto de lei que proíbe a instalação no município de circos que apresentam animais ferozes em seus espetáculos. Na semana passada, moradores de Três Corações (MG) chamaram a polícia para interceptar uma caravana de circo mambembe e impedir que entrasse na cidade com um leão.
Para sobreviver à crise que se abateu sobre os picadeiros, vários circos decidiram se desfazer de seus animais. Desesperados, alguns donos estão abandonando os animais em rodovias. No dia 17, em Varginha (MG), a Polícia Florestal encontrou um leão magro e faminto numa jaula à beira de uma estrada. O responsável foi encontrado, multado e indiciado por maus-tratos.
Doações - Outros circos estão buscando alternativas diferentes. O centenário Circo Stankowich, armado no Tatuapé, na zona leste de São Paulo, divulgou hoje que pretende doar seus cinco leões. Segundo seu proprietário, Antônio Stankowich, de 64 anos, apesar de seus animais serem registrados pelo Ibama e nunca terem atacado ninguém, será uma maneira de o circo sobreviver.
O local de destino dos leões do Stankowich ainda não está definido. "Estamos negociando com um minizoológico particular em São Bernardo do Campo, mas queremos ter certeza de que irão para um bom lugar", revela Stankowich. Para seu filho Márcio, a mudança pode trazer mais malefícios do que benefícios aos leões. "Aqui eles já estão acostumados a nossos tratadores e a gente sabe quantos quilos de comida temos de dar diariamente", diz. "Está todo mundo triste de doá-los e meu filho de 11 anos chora quando ouve falar disso, porque deu mamadeira para eles quando eram filhotes."
Os donos do circo lembram que há cerca de mil leões em picadeiros pelo País. "Se todos os circos decidirem doar, para onde vão os animais?", pergunta. "Os zoológicos não têm condições de sustentar tantos animais."
Galpão - Em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, proprietários de circo resolveram isolar quatro leões e três leoas em jaulas dentro de um galpão. "Essa é uma solução provisória, pois não temos onde colocar os animais e o Ibama e a Fundação Rio-Zôo não ajudam", disse Abádio Alves Fernandes. Um dos donos do Circo Real de Espanha, ele se juntou a empresários dos Circos Koslov, Africam Circus e Sarrazani na idéia, alegando que o público abandonou os espetáculos circenses com medo das feras.
A instalação provisória dos bichos está causando medo nos moradores da região. "Os artistas de circo são ótimas pessoas, mas me dá medo ter de dividir a parede do meu quarto com sete leões", reclamou a professora Marilene Ana da Conceição.
Em Belo Horizonte, o empresário do Internazionale Circo DItália, Vítor Karnak, de 47 anos, pediu ao zoológico da cidade que alojasse por 20 dias os seis leões asiáticos que faziam parte de seu espetáculo. Isso até que ele encontre outro local para deixar os animais em definitivo.
A iniciativa, garante Karnak, não tem relação com o acidente no Vostok, mas, para ele, que é filho de acrobatas romenos e nasceu no circo, o temor pela falta de segurança pode diminuir por algum tempo a platéia dos espetáculos.Ele ressalta que não é contra a presença de animais nos espetáculos e os grandes circos do Brasil, que, segundo ele, não passam de 15, tratam muito bem dos bichos e são seguros. Sobre os pequenos, prefere não fazer comentários.
Tendência - Apesar disso, o empresário aponta para a tendência mundial de desvalorização de animais como atração circense. Em sua opinião, o circo do futuro, como chama, valorizará mais o artista. O gerente do circo Beto Carrero World
atualmente em Porto Alegre, Jefferson Rakmer, concorda. "Circos e até zoológicos estão perdendo o interesse em leões e outros grandes felinos, como tigres e panteras, pois são animais de manutenção muito cara", afirma. Segundo ele, um leão come aproximadamente 5 quilos de carne por dia e custa, só em alimentação, cerca de R$ 500,00 mensais.
O Beto Carrero World deixou de excursionar com os felinos no começo do ano. Agora, seus seis leões permanecem no zoológico do parque, em Penha (SC). Rakmer não aceita os ataques aos circos, surgidos depois da morte do garoto no Recife. "Só porque caiu um edifício do Sérgio Naya não quer dizer que todas as construtoras não prestam", reclamou. Ele teme que a atividade até desapareça se não houver cuidado na hora de criticar e lembrou que 10 mil pessoas dependem de circos no Brasil.





