Nova York, 17 (AE) - O ex-doleiro Jamil Deegan, de 65 anos, único personagem ainda em liberdade num caso de lavagem de dinheiro do narcotráfico investigado pelo FBI em Miami, apresentou-se hoje na Corte Federal de Miami, acompanhado da mulher e do advogado, para evitar ser preso. Ele declarou-se inocente das acusações, depositou US$ 100 mil de fiança e vai responder ao processo em liberdade. A Corte impôs-lhe uma restrição: enquanto durar o processo, ele só pode deslocar-se entre Miami e Nova York. O julgamento ainda não tem data marcada.
Deegan, brasileiro naturalizado americano, faria parte do que o FBI qualifica de uma quadrilha de lavadores, composta por dois americanos e pelos empresários brasileiros Oscar de Barros e José Maria Teixeira Ferraz Junior, presos dia 31, em Miami.
Contra os últimos dois pesam também acusações de corrupção de funcionários da prefeitura de São Paulo em favor da empresa americana MetroRED. Este caso está sendo investigado num inquérito paralelo, conduzido pela promotoria de Nova York.
Barros, de 56 anos, e Ferraz, de 46, também estão no centro do caso do dossiê Cayman, uma coleção de documentos, aparentemente forjados, que denunciariam a existência no exterior de contas bancárias do presidente Fernando Henrique Cardoso, de alguns de seus principais aliados e membros de seu gabinete. O objetivo da papelada era causar embaraços eleitorais na campanha de 1998.
A apresentação de Deegan na Corte foi às 13 horas e durou menos de 10 minutos. Sua mulher, Angela, estava com ele, tendo que assinar um termo conjunto pela fiança. O promotor Joseph Capone não quis comentar os detalhes de suas conversas de bastidores com Deegan e seu advogado. Mas o acerto dele para poder apresentar-se voluntariamente na Corte, com o arranjo prévio para o depósito da fiança, enquanto os outros quatro envolvidos no caso estão na cadeia, demonstra que Deegan vai cooperar com as autoridades. Em entrevistas na semana passada, ele já tinha adiantado esta disposição. Disse que chamadas de Barros e Ferraz atendidas em seu telefone, sem saber que as conversas eram gravadas pelo FBI, o envolveram no episódio. Ele garantiu que foram temas inconsequentes, apenas estabelecendo uma ligação dele com os demais acusados, mas o suficiente para incriminá-lo. Deegan disse que contaria às autoridades tudo o que sabia sobre as atividades dos dois "porque agora é cada um por si".
O movimento de Deegan confirma sua fama de hábil manipulador do sistema americano. Ele já cumpriu quatro anos de prisão por servir como banqueiro dos cartéis colombianos do narcotráfico - e naquela ocasião, foi preso com US$ 1 milhão, dinheiro confiscado pelo FBI. Ele tem uma equipe de advogados de primeira linha. Os amigos garantem que ele tem uma fortuna escondida em algum paraíso fiscal.
Deegan soube com antecedência que os outros seriam presos no dia 31 de março. Mesmo enquanto era dado como foragido da justiça, ele manteve sua rotina: algumas horas de dolce far niente num escritório da rua 46, seguido de happy hour no restaurante Via Brasil.

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