Buenos Aires, 26 (AE) - O inusitado surgimento de carroças puxadas a cavalo carregando papel e sucata em plena avenida Corrientes é um dos sinais mais gritantes da crescente crise argentina. Mas apesar do desemprego que voltou a aumentar, da deterioração das exportações e do crescimento do déficit fiscal, políticos, empresários e economistas evitam o tema da desvalorização do peso.
A manutenção da paridade um a um entre o peso e o dólar é o primeiro consenso nacional desde a Guerra das Malvinas. Um consenso com desespero, que pode lembrar a imagem dos aristocratas que jogavam cartas no convés do Titanic, afirmando que "este navio não afunda", enquanto a proa começava mergulhar.
Neste contexto de consenso e de frenéticas tentativas de inspirar tranquilidade, a Associação de Bancos da Argentina (ABA) convocou uma "Jornada de Defesa da Conversibilidade" para a próxima semana, que reunirá banqueiros, economistas, integrantes do governo e - especula-se - até um alto representante do Fundo Monetário Internacional (FMI). O interesse do setor é evidente: a maioria de seus créditos e dívidas estão em dólares, e uma alteração do atual regime cambiário implicaria em grandes problemas.
O governo, no entanto, está indo além do apoio à paridade: agora pede que seja apoiado o projeto de dolarização do país. Esta medida foi defendida pelo presidente do Banco Central Argentino, Pedro Pou, em um longo editorial no jornal "Clarín"
o principal do país. Pou, que causou polêmica há pouco tempo ao afirmar que "a Argentina não possui moeda", sustenta que "a conversibilidade foi um sucesso", mas que "infelizmente não conseguiu gerar credibilidade sobre sua permanência".
O presidente do BC, instituição que deixaria de ter motivo de existência no caso de dolarização oficial da economia, afirmou que a partir do momento em que a moeda nacional for eliminada, elimina-se o risco cambiário.
"A Argentina está contemplando realizar uma dolarização legal desde o ano passado", afirmou o secretário de Financiamento da Argentina, Miguel Kiguel. No entanto, o secretário sustentou que a dolarização teria que ser feita pelo próximo governo, que toma posse em dezembro. Kiguel afirmou que a dolarização da Argentina não causaria problemas no Mercosul, "já que não temos um acordo monetário".
"Clinton daria apoio à dolarização", sustenta o jornal ámbito Financiero, onde relata uma recente reunião entre o diretor do Federal Reserve Bank, Alan Greenpan; o novo secretário do Tesouro, Lawrence Summers, e o economista argentino Guillermo Calvo, professor em Harvard.
De acordo com o ámbito, Greenspan, que rechaça a possibilidade publicamente, na reunião aceitou a dolarização argentina se o governo conduzir o processo "seriamente" e "não culpar os EUA por problemas posteriores". Calvo, o único argentino na reunião, declarou que a saída é a dolarização, e que se o país chegar a desvalorizar, "vai se despedaçar".

mockup