Dolarização das Américas ganha força nos EUA
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quinta-feira, 24 de junho de 1999
Por Monica Yanakiew 
Washington, 25 (AE) - A proposta de adotar o dólar como moeda única no continente americano, lançada no início do ano pelo presidente da Argentina, Carlos Menem, foi rejeitada por Brasil e México e ignorada por outros países. Mas o tema está ganhando força nos Estados Unidos, "em parte porque o novo secretário do Tesouro, Larry Summers, tem um interesse especial nesse assunto e um número significante de parlamentares norte-americanos também", disse o economista Jeffrey Frankel, da Brookings Institution.
Frankel foi um dos convidados para um seminário, organizado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), sobre dolarização na América Latina - o segundo, aliás, em poucos meses. Além dele, falaram também o presidente do Banco Central do México, Guillermo Ortiz, e o subsecretário de Finanças da Argentina, Miguel Kiguel, que encerrou sua visita de dois dias hoje. "Menem pode não ser economista, mas tem faro político e a dolarização é uma proposta que está ganhando adeptos", disse Frankel. "As pessoas estão decepcionadas com as ações dos especuladores contra as moedas e com os erros cometidos pelos formuladores de política monetária", explicou.
Apesar de o próprio Kiguel ter dito que a Argentina e os EUA não estão negociando um acordo de dolarização, nem tem planos para inicar conversas neste sentido, o tema já foi debatido no Congresso americano, onde tem a simpatia do senador republicano Connie Mac, da Florida. Ele é o presidente do Comitê Econômico Conjunto do Congresso (que é composto também por deputados) e foi um dos primeiros a levantar o tema. Summers - outro interessado - substituirá Robert Rubin como secretário do Tesouro no próximo dia 4 de julho.
Na palestra no FMI e num encontro com empresários, Kiguel explicou que a Argentina tem interesse em dolarizar a economia até porque ela já é dolarizada: 92% da dívida pública é em moeda norte-americana, assim como 58% dos depósitos no sistema bancário e 66% dos empréstimos feitos pelos bancos. "Isso quer dizer que vamos dolarizar amanhã? Não", acrescentou.
Primeiro os argentinos querem que um grupo de trabalho estude as principais travas técnicas e soluções alternativas. Se dolarizar a sua economia, a Argentina quer negociar um acordo com os EUA para superar dois problemas: uma compensação pelos US$ 15 bilhões das suas reservas, hoje investidos em bônus do Tesouro americano, que estão dando um lucro anual de US$ 750 milhões, e um emprestador de última instância alternativo.
Se trocar sua moeda pelo dólar, explicou Kiguel, a Argentina terá que vender os bônus do Tesouro americano para cobrir os 15 bilhões de pesos circulando no mercado interno. Logo ficará sem os lucros que hoje recebe. O outro problema é que, ao não emitir moeda própria, o Banco Central argentino tampouco poderá atuar para ajudar as instituições financeiras locais numa emergência. E o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) tampouco quer fazer esse papel. "O emprestador de última instância não precisa ser o Fed necessariamente - existem alternativas, como o setor privado ou instituições financeiras internacionais", disse Kiguel.
A dolarização da Argentina é compatível com a mais recente proposta de Menem e do presidente Fernando Henrique Cardoso de fazer uma convergência de políticas macro-econômicas nos quatro países do Mercosul (que abrange também o Uruguai e o Paraguai), com vistas à criação de uma moeda única? Por enquanto sim, respondeu Kiguel. "São discussões que levam tempo, podemos examinar todas as possibilidades antes de tomar uma decisão, que não será agora", explicou.
De qualquer forma, mesmo sem moeda única no Mercosul, a convergência macro-econômica é necessária para a estabilidade da região. Ortiz defendeu outra posição: ele explicou que o México, a exemplo do que fez o Brasil em janeiro passado, foi obrigado a desvalorizar sua moeda pela crise financeira de 1994 e adotar uma política de câmbio flutuante. "Na época eu era ministro das Finanças e achava que essa medida seria temporária", admitiu. "Não acreditava nela, mas tampouco tinha outra opção", acrescentou.
Depois de assistir ao peso mexicano flutuar durante quatro anos e meio, Ortiz está convencido de que este é o melhor caminho e que uma dolarização no seu país, além de politicamente inviável, seria desnecessária do ponto de vista econômico. Como exemplo, citou a inflação que caiu de 52% em 1995 para 13% este ano e a capacidade do país de atrair investimentos estrangeiros e duplicar seu comércio com os países do Nafta (Estadods Unidos e Canadá).
Se o México não está em situação melhor, explicou Ortiz, é porque tem que adotar medidas para equilibrar sua economia. "Precisamos de mais credibilidade", disse e, uma das tarefas, será fortalecer o sistema bancário. Mas o Canadá, para ele, é o melhor exemplo: sua moeda flutua há 40 anos, com sucesso, e os canadenses não pensam em adotar o dolar norte-americano.


