Dolarização argentina é uma aposta
São Francisco, 24 (AE-DOW JONES) - A dolarização da economia argentina é uma aposta que poderá tornar aquele país mais vulnerável a elevações das taxas de juro nos Estados Unidos.
A afirmação é de um relatório divulgado nesta sexta-feira (24) pelo Federal Reserve Bank de San Francisco.
De acordo com a instituição, o mérito principal da dolarização da economia argentina seria reduzir o prêmio sobre a dívida do país criado pelo risco de que o peso possa sofrer uma desvalorização em resposta a alguma crise externa.
"Infelizmente, o tamanho dessa vantagem é muito incerto", disse o autor do relatório, Mark M. Spiegel. Em maio deste ano, o presidente Carlos Menem disse a seus ministros que queria ver acelerada a formulação de planos para a adoção do dólar como moeda oficial da Argentina.
Naquela época, as taxas de juro norte-americanas já estavam em declínio havia vários meses e não havia sinais de pressões inflacionárias nos Estados Unidos.
Dolarizar a economia argentina nos próximos meses, porém, seria uma medida arriscada, já que estão crescendo as pressões para que o Fed eleve as taxas de juro para desaquecer a economia
prevenir um ressurgimento da inflação e conter o crescente déficit em conta corrente dos EUA.
Caso a Argentina decida adotar o dólar num cenário como esse, suas taxas de juro poderão não cair tanto quanto o governo do país possa estar prevendo. O fato de a Argentina ter expressado interesse na dolarização total ajudou a prevenir ataques especulativos contra o peso, mas a transição seria um processo demorado e a proposta teria que ser aprovada previamente pelo Congresso do país.
Normalmente, Bancos Centrais devem ceder a maior parte do controle sobre a política monetária ao adotar o sistema de "currency board", como aquele que já está em vigor na Argentina.
No caso argentino, porém, o BC do país retém alguma flexibilidade, com as posições em títulos do governo que usa para influenciar as condições dos mercados financeiros. Para o Fed de São Francisco, o problema da dolarização total é que deixa de existir um proverdor de crédito de último recurso para os bancos comerciais.
Atualmente, o BC da Argentina pode usar títulos do governo como reserva de liquidez, a ser oferecida aos bancos que enfrentem dificuldades. A dolarização completa eliminaria qualquer vestígio do papel do Banco Central como fonte de créditos de último recurso. "Essa posição teria que ser ocupada ou por fontes privadas, ou pelo Tesouro argentino", disse Spiegel.
O Fed norte-americano certamente não estaria disposto a cumprir esse papel para os bancos argentinos, como faz com o sistema bancário norte-americano. "Nós temos que ter cuidado para não ser vistos como rede de segurança para bancos de outros países", havia dito o pres idente do Fed, Alan Greenspan, ao depor no Congresso norte-americano em abril.
Hoje, Spiegel afirmou que "se os tomadores de crédito argentinos não têm as redes de segurança associadas a uma fonte de último recurso e a flexibilidade do Banco Central é limitada, o crescimento da probabilidade de um default sobre ativos argentinos resultante de uma elevação das taxas de juro nos EUA pode ser maior do que era sob o sistema de currency board".
No caso de uma crise de liquidez no futuro, acrescentou, o governo poderia reagir aplicando controles sobre o câmbio, para assegurar que a fuga de capitais não drenasse ainda mais recursos do sistema financeiro.
Com isso, os investidores estrangeiros "poderiam muito bem acabar sofrendo perdas de capital, devido a um default".
"Até certo ponto, portanto, sob a dolarização o risco do país seria substituído por um risco cambial. A redução líquida das taxas de juro que resultaria dessa medida acabaria sendo reduzida", concluiu o relatório.





