Dólares enviados para o exterior fere economia russa
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quinta-feira, 26 de agosto de 1999
Por Greg Myre 
Moscou, 27 (AE-AP) - No mundo financeiro da Rússia, uma coisa é certa: bilhões de dólares são enviados ilegalmente para fora do país a cada ano - a maioria deles pela máfia local e por grandes empresários - e quase ninguém é punido.
Esse dinheiro "desviado" contribuiu para minar a confusa tentativa da Rússia de construir uma economia de mercado. Mesmo assim, o governo do presidente Boris Yeltsin esteve impossibilitado, ou pouco disposto, a deter o derrame de capital ilícito que não mostra nenhum sinal de reduzir sua velocidade.
O mais recente dos escândalos é potencialmente um dos mais explosivos - vários russos são suspeitos de participar de uma lavagem bilionária de dinheiro através do Bank of New York.
Até poucos dias atrás, ninguém havia sido relacionado ao crime e o caso chamara a atenção apenas na Rússia. Mas, agora, autoridades americanas entraram no caso e no momento investigam o fluxo de capital que passou pelo Bank of New York no que poderá ser caracterizado como uma das maiores lavagens de dinheiro sujo já descobertas nos Estados Unidos.
Qual o tamanho da lavagem e da evasão de dinheiro na Rússia?
"Ninguém sabe com certeza, mas uma estimativa razoável é que cerca de US$ 10 bilhões saem do país a cada ano ilegalmente", afirma Alexei Ulukayev, economista no Instituto para a Economia em Transição, de Moscou.
"Infelizmente, não só os criminosos, mas também os homens de negócios comuns, estão envolvidos no envio de dinheiro para o exterior", disse Ulukayev. "Se fosse só a máfia, seria um problema menor: você pode lutar contra a máfia com métodos policiais. Mas quando se trata de um homem de negócios comum, métodos policiais não são suficientes".
Na Rússia pós-soviética, crime e corrupção são endêmicos e envolvem frequentemente negócios governamentais e grandes grupos de crime organizado. Uma série de escândalos de corrupção e alegações em anos recentes manchou o governo de Yeltsin.
Os russos ricos, através de dinheiro ganho legal ou ilegalmente, estabeleceram uma prática de enviar suas fortunas para fora do país, onde elas estarão protegidas caso o sistema financeiro local entre em colapso.
Ao contrário da era soviética, quando a troca de rublo por moeda estrangeira era difícil e estritamente regulada, hoje pode-se apelar para o câmbio em quiosques instalados nas ruas.
Segundo a lei russa, qualquer cidadão pode abrir uma conta em dólares, e muitos deles o fazem.
A máfia russa, que, acredita-se, é responsável pela maioria da evasão de capital, envia dinheiro para fora do país para esconder seus lucros ilícitos.
Homens de negócios genuínos enfrentam a escolha incômoda entre pagar impostos extremamente altos ou enviar o dinheiro para a Europa, onde os coletores de imposto não o encontrarão.
Até mesmo o Banco Central da Rússia, responsável por estabelecer as regras para a movimentação do capital para fora do país, arrisca com o dinheiro do povo.
O Banco Central, por vários anos, enviou bilhões de dólares para uma conta bancária secreta nas Ilhas do Canal (Grã-Bretanha). Sua explicação foi inspirada: queria esconder o dinheiro de credores estrangeiros que poderiam tentar recuperar seus empréstimos.
O BC explicou que o capital original foi devolvido, mas não disse onde os lucros dos investimentos foram parar.
Sendo assim, quando o BC da Rússia defende a prática de contas bancárias clandestinas em países estrangeiros, os russos ricos desejam saber por que eles deveriam se comportar de forma diferente.
"Nós sabemos que o dinheiro se perde nos cofres governamentais, mas ninguém parece se preocupar", disse Nikolai Gonchar, um membro independente do Parlamento que tem lutado pela abertura de uma investigação mais detalhada dentro do Banco Central.
O governo russo ainda não foi acusado de qualquer incorreção no escândalo do Bank of New York. Mas Gonchar afirma que sua investigação com bases em documentos do Banco Central o levaram a acreditar que o governo desviou grandes somas em várias ocasiões, inclusive empréstimos concedidos para a Rússia pelo Fundo Monetário Internacional.
Os bancos privados russos cresceram rapidamente depois do colapso soviético, em 1991, mas eles fizeram pouco para ganhar a confiança dos cidadãos comuns.
Muitas pessoas simplesmente não têm contas bancárias, cheque é uma facilidade desconhecida na Rússia, e em áreas rurais, caixas de banco contam transações em um ábaco.
Em Moscou, os bancos maiores podem enviar dinheiro para qualquer parte do mundo, mas eles realizam em grande parte transações irregulares e agrupam clientes que não querem responder perguntas sobre a origem de seu capital.
Esse sistema bancário cambaleante piorou ainda mais depois que a Rússia experimentou uma crise financeira em 17 de agosto de 1998, quando o país foi abatido pela crise nos mercados emergentes. O sistema bancário ficou paralisado, muitos bancos foram fechados e clientes perderam sua poupança.
Sem nenhuma surpresa, os russos ricos preferem ter suas contas em bancos de Genebra, Londres e Nova York.


