São Paulo, 18 (AE) - O mercado de dólar comercial viveu hoje um de seus dias mais tensos. Apesar das três intervenções do Banco Central, vendendo dólares diretamente pela primeira vez desde março, pelo menos duas vezes, a moeda norteamericana fechou no máximo do dia a R$ 1,910, alta de 1,65% em relação à véspera. Foi o maior nível desde o R$ 1,920 do dia 12 de março.
As causas para a alta foram a deterioração do cenário político, resultados considerados ruins do setor externo e o comportamento nervoso do mercado norte-americano ontem. Segundo operadores, o leilão de R$ 1,5 bilhão de notas cambiais feito pelo BC e a venda direta de dólares, que os operadores acreditam ter sido de pequeno volume, não foram suficientes para conter o nervosismo. A última intervenção do BC havia sido em maio, comprando dólares para evitar que a cotação caísse abaixo de R$ 1,65.
O dólar futuro também disparou. Os contratos futuros com vencimento em setembro, que indicam a expectativa de cotação para o fim de agosto, subiram 1,3%, indicando um dólar a R$ 1 913, alta de 6,28% em agosto.
O dia em outros mercados também foi tenso. A Bolsa de Valores de São Paulo encerrou o dia em queda de 2,37%, após ter caído 3,35% durante o pregão. O volume cresceu em relação à véspera: foram negociados R$ 516 milhões. Os títulos da dívida externa também caíram. O C-Bond, principal papel brasileiro, fechou a 59,375 centavos de dólar, queda de 2,46% em relação à véspera.
Deterioração - A alta do dólar está refletindo a preocupação dos investidores com a deterioração da base política do governo, segundo avaliação feita ontem pelo ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore, em entrevista na Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fcesp). Segundo outros analistas, a disputa em torno das reivindicações da bancada ruralista mostra que será muito difícil para o governo tentar aprovar as reformas neste segundo semestre.
Para Pastore, o governo precisa negociar com os partidos de sua base de sustentação a aprovação de medidas essenciais ao ajuste fiscal. Nesta negociação, se for preciso, deve ceder ministérios para PFL ou PMDB. "Mas não deve alterar sua política econômica", defendeu.
A disparada do câmbio reflete também o comportamento nervoso do mercado norteamericano hoje, e os resultados considerados ruins do setor externo. A balança comercial não reagiu como esperado à desvalorização e o próprio governo já admite um déficit de conta corrente maior que o negociado com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Outra preocupação é com possíveis consequências para a equipe econômica do desgaste do relacionamento do governo com partidos aliados.
Pânico - O mercado passou hoje, segundo operadores, por um princípio de pânico. O Banco Central interveio diretamente no mercado vendendo dólares por duas vezes: uma no início da manhã e outra à tarde. Isso não foi suficiente para evitar a alta de 1 65% na cotação da moeda americana: o dólar terminou o dia valendo R$ 1,91.
O BC entrou no mercado assim que a cotação ameaçou superar R$ 1,90. Inicialmente, a reação do mercado foi boa e o dólar caiu para até R$ 1,895. O BC também fez o programado leilão de R$ 1,5 bilhão em títulos públicos indexados à variação cambial, vendendo integralmente os papéis com juro de 12,87%. Mas no fim do dia o dólar voltou a subir. Nem mesmo as medidas decretadas pelo BC para estimular a entrada de dólares animaram o mercado. O dólar subiu para R$ 1,91 no fim do dia, sem reação do BC.

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