Dólar bate em R$ 2,003 e o Banco Central intervém
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terça-feira, 26 de outubro de 1999
Por Vânia Cristino e Soraya de Alencar 
Brasília, 27 (AE) - O Banco Central (BC) abandonou hoje sua atitude passiva e interveio no mercado de câmbio, depois que a cotação do dólar ultrapassou R$ 2,00. O dólar fechou com leve baixa, valendo R$ 1,9890, em queda de 0,35% em relação à véspera. O dia foi de fortes oscilações. A cotação da moeda norte-americana chegou, na parte da tarde, à máxima de R$ 2,003, alta de 0,40% em relação à véspera.
Há comentários em alguns gabinetes oficiais de que a atitude de hoje marca o início de uma nova política de intervenções no mercado de câmbio, que já foi negociada com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e que deverá ser anunciada na próxima semana.
Nesse novo desenho, haveria um aumento da flexibilidade do piso das Reservas Internacionais Líquidas (RIL), que não considera os recursos do pacote do FMI e do BIS (Banco para Compensações Internacionais). Não se sabe ainda qual será a amplitude dessa flexibilização. O governo brasileiro reivindicou
nas discussões com o FMI, a supressão pura e simples do piso da RIL, com o argumento principal de que uma política de metas inflacionárias não é compatível com tal limitação.
Sem regras - A posição do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, sempre foi contrária às regras de intervenção para a autoridade monetária, porque engessa sua atuação diante de oscilações bruscas do mercado. Fraga considera que o governo deve lutar para alcançar as metas definidas para a inflação e que o piso para as reservas é uma limitação inconsistente com esse sistema. A existência de uma regra fixa e de um piso de reservas impedem que o BC tenha um papel ativo na política cambial.
Hoje, o Banco Central é mero espectador do mercado de câmbio. Nas conversas com o Fundo, o Brasil tem mostrado também outra inconsistência do acordo: a existência de metas indicativas para o crédito doméstico líquido (CDL), que é tradicionalmente um dos principais parâmetros dos programas de ajuste do FMI com os países membros. O CDL mede a expansão do crédito na economia. A inconsistência seria obrigar o governo a perseguir também esta meta, ao mesmo tempo que a meta de inflação.
Com a liberdade de intervenção e maior flexibilização do piso das reservas, seria permitido ao Banco Central adotar uma atitude mais ativa para conter flutuações excessivas da taxa de câmbio, que criam incertezas entre os agentes econômicos e perigosas pressões inflacionárias.
Transição - Quanto ao parâmetro do crédito doméstico líquido, embora esteja sendo renegociado, o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Edward Amadeo, disse hoje que haverá "uma transição" para o regime de metas de inflação porque "é uma mudança filosófica muito grande para o FMI". Segundo ele, nenhum país tem meta de inflação como parte do acordo com o Fundo.
Amadeo observou, ainda, que a cotação do dólar está elevada, apesar de não estarem sendo registradas saídas de capital do País como as do fim do ano passado. "Tudo indica que teremos uma apreciação do câmbio, no mais tardar em janeiro", disse.
Segundo Amadeo, a alta das últimas semanas é explicada não só pela concentração de amortizações de dívida externa, mas também pela falta de liquidez em moeda estrangeira. As eleições na Argentina e até o bug do ano 2000 estariam contribuindo para a alta do dólar, disse ele. Com a aproximação do fim do ano, os investidores estariam sendo cautelosos em seus investimentos no exterior, temendo os efeitos do bug, reduzindo a quantidade de dólares disponíveis.
Títulos - A única informação divulgada oficialmente hoje pela assessoria de imprensa do BC foi de que houve venda da moeda americana. As normais legais obrigam que os dólares sejam oferecidos a pelo menos cinco instituições. A última intervenção do Banco Central no mercado de câmbio foi no dia 18 de agosto.
Desde então o BC tentou conter as fortes oscilações no mercado com a venda de títulos com correção cambial, que era demandado pelas empresas e instituições para fazer hedge (seguro). Mas esses títulos não foram suficientes abrandar a demanda por dólar, que foi pressionada principalmente por causa do grande volume de pagamentos de dívida externa este mês.


