São Paulo, 20 (AE) - O mercado continua manifestando cautela com os cenários interno e externo nesta sexta-feira. Ontem, as cotações do dólar voltaram a subir e ganharam impulso à tarde com as notícias sobre reestruturação da dívida do Equador, atingindo R$ 1,937 no fechamento. Hoje, a moeda norte-americana já abriu em R$ 1,94 e instantes atrás era cotada na máxima de R$ 1,956 na venda, 0,98% acima do fechamento anterior. Diante da nova política de câmbio livre, o BC tem afirmando que só atua para conter a volatilidade e dar liquidez, mas não para alterar o patamar das cotações. No entanto, não passou despercebido o fato de o BC ter agido justamente quando a moeda americana atingiu R$ 1,90, dois dias atrás, vendendo dólares e anunciando medidas para atrair capitais. As medidas não tiveram efeito, pelo menos num primeiro momento, e a expectativa agora é sobre o comportamento do BC no caso de o dólar seguir subindo. Alguns analistas acham que o BC deveria intervir, ou vendendo dólares diretamente ou mais papéis cambiais, sobretudo de curto prazo. Eles argumentam que a alta do dólar, além de ameaçar produzir pressões inflacionárias, afeta negativamente a popularidade do governo e também tem reflexos no Mercosul, reforçando os protestos contra o Brasil na Argentina. Outros analistas, contudo, acham que seria um erro o BC intervir. Primeiro, porque o mercado sabe que as reservas não permitem vendas expressivas e por longos períodos. Quanto aos títulos cambiais curtos, poderiam atrair capital mas apenas por um curto período, sem impacto sobre as expectativas de longo prazo.
Se o BC está sendo testado no câmbio, também o mercado não está alheio a riscos. As empresas que procuram hedge com dólar nos níveis atuais sentirão alívio no caso de os preços subirem ainda mais. Mas terão pago um custo alto pela proteção no caso de um recuo das cotações para o patamar anterior à atual onda de crise, no nível de R$ 1,80 ou mesmo abaixo disto. Afinal
o mercado costuma exagerar também nos movimentos otimistas. Por ora, devido ao ambiente político e de expectativas conturbado, não parecem haver apostas numa queda, pelo menos no curto prazo. "A marcha dos sem-terra chega na semana que vem e o clima ficará pesado em Brasília", comentou um profissional ouvido pela Agência Estado. Ele lembrou também os riscos no cenário externo.
O medo de alta dos juros nos EUA recrudesceu ontem e, para piorar, surgiram rumores negativos sobre o Equador. Mas outros analistas ponderam que os fundamentos da economia brasileira, à exceção da balança, estão positivos e não justificariam tanto nervosismo. Ontem mesmo foi divulgado dado mostrando redução do déficit em transações correntes, mas o mercado não se sensibilizou. Mesmo o Congresso, palco das maiores atribulações do governo ultimamente, tem produzido algum trabalho útil às contas públicas, como as recentes votações da quebra da estabilidade do emprego. Na crise dos ruralistas, os problemas continuam, mas o apoio de ACM ao veto de FHC não parece tão banal politicamente como o mercado pareceu entender ontem. Se os fundamentos continuam positivos, qualquer mudança no cenário político poderia reduzir o fôlego do dólar e deixar as cotações sem sustentação. Assim, a pressão atual do câmbio poderia oferecer uma oportunidade de novos ganhos, mas para quem souber o timing exato de vender.
De qualquer forma, o fato é que, no confronto entre fundamentos atuais em ordem e dúvidas sobre o longo prazo, as expectativas ruins continuam se sobressaindo. A baixa credibilidade de FHC, que começou com o fiasco do "pacote 51" no final de 97 e foi reforçada pela desvalorização, certamente tem papel importante nesta equação. (Josué Leonel)

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