Dois supermercados são saqueados em menos de 12 horas na zona leste
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 1999
Por Gabriela Carelli 
São Paulo, 18 (AE) - Em menos de 12 horas, dois supermercados foram saqueados na mesma região. No bairro do Itaim Paulista, na zona leste, donos de alguns estabelecimentos comerciais, receosos, preferiram deixar as portas semi-abertas. Na madrugada de hoje, à 1h15, cerca de cem pessoas arrombaram o Mercado União, na Avenida Kemel Addas. Quarta-feira, por volta das 13 horas, um grupo de 200 tinha invadido o Mercado Itapiaru, na Rua Desembargador Paulo Otaviano Diniz Junqueira.
As histórias são diferentes e não têm ligação, garante o delegado Antônio Abissamra Neto, titular do 50.º Distrito Policial, onde foram registrados os dois boletins de ocorrência. "No primeiro caso, o saque pode ter ocorrido por causa da necessidade das pessoas; o segundo, de acordo com as informações passadas pela polícia, tem relação com falta de pagamento dos funcionários". Gente simples - Oito pessoas foram presas em flagrante por policiais militares no episódio do Mercado União. Segundo os PMs que atenderam à ocorrência, os indiciados aparentavam ser pessoas simples. "Acho que o problema é a necessidade e a fome", disse o cabo Vanderlê Carlos da Mota, que se assustou com a quantidade de pessoas correndo com sacolas na mão e carrinhos de supermercados lotados em plena madrugada. "Nunca vi um saque desse tipo", contou ele, que trabalha na área há 12 anos.
Entre os detidos, havia mulheres e até adolescentes - a idade do grupo varia entre 14 e 43 anos. Em seus depoimentos, os presos afirmaram ser vítimas do desemprego. A descrição das mercadorias levadas, porém, não revela desespero. Os itens mais "procurados" foram produtos de higiene pessoal e cerveja. Foram roubados R$ 300,00 dos caixas e das máquinas registradoras que foram destruídas.
A dona do União, Darci Pacheco Colasso, estava desconsolada. "Meu prejuízo vai ser de, no mínimo, R$ 15 mil", afirmou. "Desemprego e fome não justificam o que eles fizeram; ter fome é uma coisa, ser vândalo e danificar é outra". No local há três anos, ela disse nunca ter sofrido esse tipo de agressão. "Sou humilde, vim de baixo; é só me pedir um saco de arroz ou feijão que dou" Sem pagamento - O saque no Mercado Itapiaru, na Rua Desembargador Paulo Otaviano Diniz Junqueira, também no Itaim Paulista, ocorreu em plena luz do dia e levanta suspeitas da polícia sobre uma suposta armação dos donos. Funcionários do local relataram que, logo no início da manhã de ontem, uma Kombi levou os melhores produtos do supermercado, que estaria à beira da falência.
Os empregados, que estariam sem receber há quatro meses, foram então chamados para retirar alguns produtos. Foi a deixa para o início da confusão.
Cerca de 200 pessoas invadiram o local, quebraram gôndolas, abriram alimentos enlatados e pacotes de bolachas. Hoje à tarde, o lugar estava sendo vigiado por um serralheiro, que havia sido chamado para consertar a porta.
Os donos não haviam aparecido até então. Érica Cristina de Almeida permanecia dentro do mercado, esperando que algum proprietário fosse ao local. "Quero o meu salário; não tirei nada daqui do supermercado e vou ficar esperando até alguém tomar vergonha na cara". A reportagem procurou por Heleno Moraes de Souza, apontado como dono do local, mas não o localizou.


