Paris, 19 (AE) - O DNA está prestes a se transformar num dos melhores historiadores do mundo. Ao submeter os restos de corpos humanos à análise genética, os cientistas podem resolver os enigmas mais obscuros do passado.
Foi isso o que aconteceu há pouco com os restos da família do czar assassinado pelos bolchevistas na Rússia. Agora, mais uma prova: O DNA confirma que o menino morto na Prisão do Templo em Paris, em 1795, era Luis XVII. Seu pai, o rei Luis XVI, havia sido executado na guilhotina três anos antes, no dia 21 de fevereiro de 1792. (a mulher de Luis XVI, Maria Antonieta, foi guilhotinada também, um ano depois de seu marido, no dia 16 de outubro de 1973).
Certamente eram grandes as suspeitas de que o menino morto na Prisão do Templo, sob a identidade de Luis XVII, era o herdeiro da coroa da França. Mas, como o acontecimento tinha um alcance enorme e como depois sobreveio o caos da Revolução, durante dois séculos foram inventados todos os tipos de tese para explicar que o verdadeiro Luis XVII havia escapado, ou havia sido trocado
etc....
Com base nesta dúvida proliferaram os românticos e os trapaceiros. Nas décadas seguintes, surgiram 43 falsos Luis XVII. O mais célebre desses falsos delfins foi Charles-Guillaume Nausdorff, que se fazia chamar de "Louis Capeto" (os reis da França foram todos descendentes de Hughes Capet, na Idade Média) e que depois tornou-se vendedor ambulante de relógios e morreu em 1845 após uma vida rocambolesca.
As análises de DNA puderam ser feitas graças a um personagem heróico, o cirurgião Philippe-Jean Pelletan, que, depois de ter atestado a morte do menino Luis XVII, conseguiu, expondo sua própria vida, retirar o coração do cadáver, colocá-lo em seu bolso e conservá-lo em álcool.
Muito tempo depois da Revolução, a relíquia foi entregue ao arcebispo de Paris, depois perdida, reencontrada e, finalmente, confiada à basílica dos Reis da França, em Saint-Denis.
Não podemos deixar de sentir horror e desprezo quando se reconstitui o martírio deste menino que tinha apenas 10 anos quando foi morto. Seu pai, o rei Luis XVI (que foi um grande homem, sem culpa de nada) e sua mãe, Maria Antonieta, sofreram uma morte infame na guilhotina. Esta é uma mancha inapagável na memória dos homens da época do "Terror".
Mas, a morte infligida ao filho desses reis é igualmente cruel e infame. Depois da morte de Luis XVI, os revolucionários ordenaram que o menino fosse separado de sua mãe (ainda viva durante alguns meses) e encarcerado num lugar afastado da Prisão do Templo. Foi entregue a um personagem ignóbil, o sapateiro Antoine Simon (que seria guilhotinado dois anos mais tarde, depois do fim do Terror).
O pequeno Luis XVI ficou isolado, submetido a condições degradantes e privado de cuidados, o que favoreceu sua tuberculose. Nos seis últimos meses de sua vida, embora seu guardião tivesse mudado nesse interim, o menino viveu uma vida sinistra, num minúsculo cubículo, mal iluminado.
Era alimentado como um criado. Morreu vitimado por uma peritonite ulcerosa de origem hematogena.
Seu esquife foi lançado numa "fossa comum", da Rue Saint Bernard (e jamais encontrado). Desta forma, todas as fantasias e alucinações que proliferaram a respeito deste destino miserável - sua troca, sua fuga, etc.- são agora definitivamente anuladas e falsas: o pequeno mártir da Prisão do Templo era realmente o herdeiro do Reino da França, o filho de Maria Antonieta (às vezes se garantiu que ele não era filho de Luis XVI - que não parecia ter uma atividade sexual exuberante - mas de Fersen, um belo sueco, amante da rainha, mas, neste ponto também, oa DNA poderá mostrar a verdade).
A análise de DNA lança uma luz repugnante sobre os revolucionários - embora não absolutamente sobre os generosos revolucioonários do início da Revolução, mas sobre aqueles que foram tomados por um delírio sanguinário um pouco mais tarde, na época do Terror.

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