Dois povos sem Estado no topo da agenda mundial
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 1999
Por Kurt Schork 
PRISTINA, Sérvia, 18 (AE-REUTERS) - Os curdos e os albaneses de Kosovo, dois povos deixados para trás quando as Grandes Potências retaliaram a carcaça do Império Otomano no começo deste século, estão capturando a atenção mundial na mesma semana.
Abdullah Ocalan, líder do exército separatista curdo turco conhecido como PKK, foi capturado em Nairóbi na terça-feira e levado para Istambul a fim de ser julgado, deflagrando violentos protestos entre a diáspora curda nas capitais de toda a Europa.
Curdos promoveram manifestações até mesmo do lado de fora dos portões do castelo do século 14 de Rambouillet, nos arredores de Paris, onde sérvios e étnicos albaneses estão trancados há duas semanas tentando definir pacificamente o futuro de Kosovo.
Observadores dizem que a estabilidade nos Bálcãs e no Oriente Médio está intrinsecamente ligada ao futuro desses dois povos, para os quais a história tem sido notoriamente ingrata.
"É fascinante. Aqui estamos 80 anos depois da queda do Império Otomano e dois povos que existiam na orla daquele império se catapultam para o topo das notícias", afirmou Jonathan Randal, autor e especialista curdo, à REUTERS.
"Nacionalistas albaneses que têm estado frustrados desde o começo do século estão finalmente recebendo a atenção devida em Rambouillet enquanto os curdos, mais uma vez, estão sendo sacrificados pela comunidade internacional por razões egoístas", disse ele.
"Os kosovares são mais afortunados do que os curdos. Não existe petróleo ou água pelos quais se brigar nos Bálcãs".
Os curdos, estimados em pelo menos 20 milhões, são o povo mais numeroso do mundo sem um Estado.
Um Estado curdo foi considerado e depois rejeitado pelas grande potências depois da Primeira Guerra Mundial, quando os curdos estavam divididos entre as recém-traçadas fronteiras da Turquia, Síria, Iraque e Irã.
Os curdos iraquianos têm combatido o governo de Bagdá por décadas, algumas vezes ajudados pelo Ocidente, mas sem muito sucesso.
Cerca de um quinto da população turca de 60 milhões de habitantes pode ser curda, concentrada principalmente no sudeste e centros urbanos.
Grupos internacionais de direitos humanos afirmam que os curdos turcos têm sofrido enormes perseguições nas mãos das forças de segurança do governo, especialmente desde que o PKK deu início à luta pela independência em 1984.
Existem importantes diferenças entre a luta curda e a dos albaneses de Kosovo.
A mais importante, os albaneses étnicos têm uma Estado no Bálcãs - Albânia - que faz fronteira com Kosovo no oeste.
Mas quando as fronteiras da Albânia foram traçadas pelas grandes potências em 1913 depois das Guerras dos Bálcãs, metade de todos os albaneses étnicos se viram em outros países, criando uma fonte de instabilidade que têm perseguido a região desde então.
Kosovo é na realidade uma província sulista da república iugoslava da Sérvia, que vê a região como o berço da história e da religião sérvias.
Noventa por cento dos dois milhões de habitantes de Kosovo são albaneses étnicos que têm vivido sob um duro regime sérvio por uma década.
Esta situação provocou o surgimento do Exército de Libertação do Kosovo (ELK) no ano passado, um grupo denunciado por Belgrado como "terrorista", da mesma forma que o PKK é rotulado na Turquia.
Mesmo se essas acusações sejam provadas verdadeiras nos dois casos, Ocalan e seu PKK inegavelmente fizeram para os curdos o que o ELK tem feito para os étnicos albaneses em Kosovo: colocar sua causa na agenda dos líderes ocidentais que prefeririam ignorá-los.
Em ambos os casos, a luta violenta, e não manifestações pacíficas, tem atraído a atenção mundial.
Por quê, então, os étnicos albaneses tendem a receber do Ocidente substancial autonomia em Rambouillet enquanto os curdos, especialmente os da Turquia, foram deixados para se virar por conta própria?
"No final a questão é: quem são seus amigos e seus inimigos. A Turquia é um membro da Otan. Os EUA e a Europa não gostam da política da Turquia para os curdos, mas a preservação das relações da Otan é mais importante", afirmou um diplomata em Kosovo que pediu para não ser identificado.
"A Turquia é um pilar da política americana no Oriente Médio e tem uma nova parceria com Israel que está sendo encorajada".
"Ao mesmo tempo, (o presidente iugoslavo) Slobodan Milosevic é visto por Washington como a causa da instabilidade nos Bálcãs e é intensamente odiado, também. Assim, existe menos relutância em tomar dele e recompensar seus inimigos.
"Arbitrariedade? Para início de conversa, é assim que as fronteiras nos Bálcãs e no Oriente Médio são definidas".


