Otávio Magalhães/Agência Estado
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France Press

Rio, 28,6 grausVista aérea do Aterro do Flamengo, tomado por fiéis durante a missa campal realizada ontem de manhã por João Paulo 2º. O cantor Roberto Carlos (foto de baixo), que participou da cerimônia, foi abençoado pelo papa




A missa campal que João Paulo 2º celebrou ontem no Aterro do Flamengo foi um megaevento do catolicismo. Reuniu 500 bispos e 17 cardeais, três corais e uma orquestra sinfônica, o cantor Roberto Carlos e sobretudo uma multidão que o Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar do Rio estimam em dois milhões de fiéis. Ao chegar ao local, às 8h53, o papa foi informado por sua assessoria de que naquele instante já o aguardava 1,5 milhão de pessoas. Comentou que seria uma das maiores missas de seu sacerdócio.
Em termos de público, mas também em duração. A missa durou quase três horas. Em Paris, em agosto último, a missa que celebrou no Campo de Marte foi presenciada por 1,2 milhão de fiéis. O sol que brilhou num céu sem nuvens no Rio aumentou os efeitos do calor, que chegou a 28,6 graus à sombra, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia.
A Secretaria Municipal da Saúde registrou 2.552 atendimentos por insolação ou problemas mais graves; 128 pessoas precisaram ser internadas. Em sua homilia, o papa retomou a defesa dos valores familiares - oposição ao divórcio e defesa da fidelidade conjugal - que marcou os pronunciamentos da sua terceira visita ao Brasil.
Retomou o mesmo trecho do Novo Testamento em que baseou o pronunciamento da véspera, durante a missa na Catedral Metropolitana, para um público bem menor, de 5.000 pessoas. Nele, interrogado por judeus, Jesus contestou que o homem possa repudiar sua mulher. Ao celebrarem o matrimônio, o homem e a mulher transformam-se ‘‘na mesma carne’’. Assim, ‘‘o que Deus uniu, o homem não pode separar’’. A homilia foi de certo modo o único momento em que a missa deixou em suspenso a predominância de uma espécie de espetáculo alegre, com muita bonomia comandada pelos 1.300 jovens do coral das paróquias cariocas. Eles agitavam os braços, movimentavam o corpo dentro de pequenas batas amarelas e brancas - cores do Vaticano.
Concebiam o cristianismo como uma grande festa e acabaram influenciando os convidados engravatados, os veteranos da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e os diversos escalões do clero, reconhecidos por suas casulas claras. Artisticamente, não fizeram sombra às 80 vozes do Coral de Artistas Líricos ou aos beneditinos que entoaram um brilhante ‘‘Tu es Petrus’’, peça do repertório gregoriano. Mas coube aos jovens fazer a festa.
Apesar da farta distribuição de água, primeiro por um grupo de funcionários da estatal fluminense de água doméstica, em seguida por copinhos de mineral gelada, parte dos convidados não resistiu e se abrigou do sol embaixo do altar, projetado por Abel Gomes, cenógrafo da TV Globo. O papa estava protegido do calor. Três aparelhos de ar-condicionado funcionavam na parte do altar ocupada por João Paulo 2º, mantendo a temperatura do local em torno dos 24 graus.
Para a massa humana que se comprimia no aterro do Flamengo, no entanto, era por R$ 1,00 que os ambulantes vendiam garrafinhas de água e copos de mate. Bombeiros usaram jatos de água para refrescar a multidão. As pessoas que procuraram ficar mais próximas do altar chegaram ao aterro anteontem à noite. Por volta das 5h30, ao amanhecer, cerca de dez mil pessoas, segundo a PM, já se encontravam no local.
Um dos aspectos que mais agradou ao papa João Paulo 2º durante sua terceira viagem ao Brasil foi constatar que o Rio ‘‘é uma das poucas cidades do mundo que é verdadeiramente multirracial’’.
A declaração foi feita ontem logo após a missa campal do Aterro do Flamengo pelo porta-voz do Vaticano, Joaquim Navarro Valls. ‘‘O que encanta o papa é constatar que aqui se vê o rosto e aqui convivem pessoas de todas as cores que o amor humano pode combinar’’, disse Navarro Valls. De acordo com o porta-voz, o caráter multirracial da cidade, para o papa, ‘‘é um testemunho de amor humano que o agrada de modo particular’’. ‘‘É um caso único o do Rio e não há igual em nenhuma outra cidade do Brasil’’, disse Navarro Valls.

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