Dois lados se preparam para possível batalha em Washington Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 05 (AE) - Os prédios que o Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial (BIRD), a quatro quadras da Casa Branca, foram declarados temporariamente sedes de missões diplomáticas e estarão sob a proteção do Serviço Secreto, dentro de um perímetro de segurança de várias quadras que a polícia estabelecerá em torno dos dois edifícios. Os governos dos 182 países membros das duas instituições foram instruídos a limitar a seis pessoas suas delegações à reunião semi-anual da semana que vem e a economizar o dinheiro do aluguel de carros e limusines para seus ministros. O acesso aos prédios será feito exclusivamente por ônibus escoltados pela polícia a partir de meia dúzia de hotéis, onde os chefes das delegações e seus acompanhantes ficarão hospedados, e do Kennedy Center, a cerca de um quilômetros de distância, onde os funcionários das duas instituições deverão estacionar seus carros. Para reduzir ao máximo a circulação de pessoas e facilitar o trabalho de segurança dos dois edifícios, os estacionamentos do Fundo e do BIRD permanecerão fechados.
Essas são algumas das providências já tomadas para garantir a realização da reunião em meio aos protestos maciços contra a globalização que estão sendo preparados por uma vasta coalizão de organizações não-governamentais, sindicatos, igrejas dos Estados Unidos sob a bandeira da "Globalização pela Justiça Global".
Encorajados pelo sucesso das manifestações de dezembro passado em Seattle, que contribuíram para provocar o colapso da reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio, os organizadores dos protestos em Washington prometem repetir a dose, no sábado e domingo da semana que vem, barrando o acesso dos delegados às reuniões e realizando vários atos de desobediência civil contra o que um deles, Kevin Danaher, chama de "as elites que usam o Banco Mundial e o FMI como instrumentos para criar a ordem econômica global injusta e destrutiva que temos hoje". Segundo Danaher, a mobilização contra o FMI e o Banco Mundial "é a continuação de um movimento global muito mais amplo que começou antes de Seattle e levanta uma pergunta: quem governa, é o dinheiro ou são as pessoas? ".
Não é certo que as manifestações terão o mesmo efeito dos protestos de Seattle. O objetivo é menos claro, não há nenhuma iniciativa específica no FMI ou no BIRD a ser paralisada e os preparativos começaram tarde.
Além disso, a polícia de Washington e as forças federais incumbidas da segurança dos prédios públicos da cidade, muitos dos quais estão situados na área da reunião, são escoladas nesse tipo de protestos e, por causa da presença do governo e de mais de uma centena de embaixadas na cidade, as regras sob as quais eles são permitidos são mais rígida.
E a rala presença de minorias raciais entre os organizadores do protesto é um outro problema potencial para o sucesso dos protestos numa cidade que existe em função da vasta burocracia federal. Como notou há dias o Washington Post, "praticamente todos os participantes das reuniões preparatórias são brancos, moram no Distrito de Columbia e estão conscientes de que estão convidando milhares de visitantes a desrespeitar a lei numa cidade que é predominantemente negra".
Os protestos contra o FMI e o BIRD já estão sendo ensaiados em universidades e centros comunitários em cinquenta cidades dos Estados Unidos. O grosso dos manifestantes começa a chegar à capital americana neste sábado para uma série de eventos preparatórios aos protestos e a definição mais clara de uma estratégia para as manifestações. A exemplo de Seattle, a mobilização é coordenada por intermédio da página do movimento na Internet. O endereço do site é www.a16.org. "O Banco Mundial e o FMI estão silenciosamente escrevendo as regras para manter o mundo seguro para as multinacionais enquanto privam economicamente bilhões ao redor do mundo", afirmam as organizações envolvidas nos preparativos dos protestos, que são em suas esmagadora maioria americana mas dizem falar em nome dos interesses "dos povos do mundo" e, em especial, dos países em desenvolvimento. "Os ministros das finanças e burocratas internacionais que dão forma à economia mundial para tornar os ricos mais ricos e os pobres mais pobres precisam saber que Seattle não foi apenas um obstáculo em seu caminho rumo à dominação global".
"O que afirmamos na OMC precisa ser repetidos ao governantes da economia global: precisamos deixar claro, novamente, que os movimentos populares do mundo não permanecerão calados enquanto aqueles que detêm o poder continuam a empobrecer e oprimir a maioria dos povos do mundo e destruir o meio ambiente e os recursos da Terra para enriquecer a si próprios e às corporações". As demonstrações contra o Fundo começam a esquentar na semana que vem com duas outras manifestações marcadas para Washington - um, no dia 9, em favor do cancelamento da dívida dos países mais pobres, e outra, no dia 12, contra a aprovação pelo Congresso dos EUA da aprovação do status de parceiro comercial normal para a China, que é parte do processo de (mas não condição para a) a admissão de Pequim como membro da OMC, um passo que tornará a organização realmente global.
A polícia do Distrito de Columbia comprou mais de US$ 1 milhão em novos equipamentos para controle de multidão e iniciou um programa de treinamento especial há mais de um mês de cerca de 1.500 policiais municipais e agentes federais. "Se os manifestantes fizerem demonstrações pacíficas em áreas que não bloqueiam o tráfego de veículos e de pedestres, tudo bem", disse Terrance W. Gainer, o vice-chefe da polícia de Washington. "Se eles bloquearem vias importantes, estaremos preparados para detê-los". Agentes de inteligência tentaram identificar os auto-intitulados "anarquistas" e "autonomistas" , que iniciaram as quebras de vitrines de lojas em Seattle e prometem - em mensagens enviadas ao site da manifestação, fazer nova aparição semana que vem em Washington. Sem entrar em detalhes, Stanley Fischer, o atual diretor-gerente interino do FMI, que conduzirá a reunião no lado do Fundo (o novo diretor-gerente já eleito, o alemão Horst Koehler, assume somente em maio), disse na terça-feira que sua organização está coordenando os preparativos com as autoridades policiais da cidade de Washington e do governo federal. Perguntando se o FMI havia contemplado transferir o encontro para o prédio do Pentágono ou de usar helicópteros para transportar os ministros e demais autoridades, ele respondeu, em tom de brincadeira: "Helicópteros é uma coisa na qual não havíamos pensado, mas talvez seja uma boa idéia". Fischer garantiu "a reunião se realizará como programada" e lembrou que "bloquear acesso a prédios públicos é ilegal".





