Recife - Dois índios foram mortos a tiros e o cacique da tribo dos Xucurus, Marcos Luidson de Araújo, de 24 anos, foi ferido ontem, por volta das 10h30, em uma emboscada em Pesqueira, a 215 quilômetros do Recife. Marcos é filho do cacique Francisco de Assis Araújo, o Chicão, morto em maio de 1998 por liderar a luta pela terra. Desde a morte do pai, Marcos e a mãe Zenilda vêm sofrendo ameaças.
As ameaças levaram a Organização das Nações Unidas (OEA) a recomendar ao governo brasileiro que desse proteção aos dois indígenas. A sugestão, de outubro de 2002, ainda não foi cumprida. ''Tudo isso poderia ter sido evitado se o cacique estivesse sob proteção federal'', afirmou o representante do Gabinete de Assessoria às Organizações Populares (Gajop), Leonardo Hidaka.
Os 9 mil índios xucurus de Pesqueira têm direito a uma área de 27 mil hectares, já demarcada e homologada pelo governo federal. Eles ocupam, porém, apenas 20% desta área porque 281 propriedades ainda não foram indenizadas.
O atentado, no qual morreram Adenílson Barbosa da Silva, de 19 anos, da tribo Xucuru, e Joseílton José dos Santos, cerca de 25 anos, da tribo Atikun, aconteceu na estrada que liga Pesqueira à Vila de Cimbres, onde moram índios e não-índios. Eles estavam em um caminhão dirigido por Marcos, que foi obrigado a parar porque a pista havia sido interditada com gado. Assim que parou o veículo, um grupo de homens começou a atirar contra eles.
O crime revoltou os xucurus, que incendiaram carros na estrada e derrubaram uma casa na Vila de Cimbres, onde acreditavam que os criminosos haviam se escondido. Os xucurus suspeitam do envolvimento de fazendeiros e do índio xucuru Expedito Alves Cabral, também fazendeiro e contrário à luta do seu povo, no atentado.
Para o vice-presidente nacional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Saulo Feitosa, o atraso na regularização das terras indígenas é o principal motivo das mortes. Ele lembrou que em 2003 cinco índios foram assassinados no País, quatro deles por conflito fundiário.
Saulo Feitosa afirmou que o decreto 1775/96, no governo Fernando Henrique Cardoso tumultuou as demarcações ao favorecer os invasores de terras indígenas, permitindo que qualquer pessoa possa contestar a homologação das terras. ''Desde então, quatro xucurus morreram em Pesqueira'', informou. Dos quatro, dois eram caciques, Chicão e Francisco Santana, o Quelé, assassinado em 2001.

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