Mário CésarLuta a doisO casal de aposentados Alício e Aparecida de Oliveira, que confirmaram o diagnóstico da doença no final do ano passado e hoje fazem tratamento: ‘Graças a Deus não temos problema por causa disso, não. Tem que se tratar até ficar bom’Apesar de ser uma doença curável, o estigma da hanseníase continua sendo o mal a ser combatido. A maior parte dos portadores do bacilo tem medo de revelar o diagnóstico, até mesmo entre familiares, e sofrer rejeição. ‘‘Aqui todo mundo é calado. Não gosta de falar sobre o assunto’’, conta o aposentado F.C., 70 anos, que prefere não ser identificado. Ele compareceu, na última sexta-feira, ao Programa de Controle de Hanseníase, na 17ª Regional de Saúde. ‘‘Estou em tratamento, ninguém precisa ficar sabendo do meu problema.’’
Silenciosas, cabisbaixas, as pessoas que aguardam o atendimento na sala de espera do programa não costumam partilhar os problemas. Tentam manter o anonimato, quebrado apenas quando o nome é chamado para o atendimento. ‘‘A gente sabe que não vai transmitir a doença mas os outros acham que podem pegá-la’’, diz F.C.
A professora S.S., 47 anos, casada, aguarda o resultado de exames que poderão confirmar ou não a suspeita da doença. Mas conta que, desde o dia em que foi levantada a hipótese de ser portadora do bacilo, o medo da rejeição tomou conta de sua vida. Apenas o marido e alguns poucos amigos foram informados sobre a situação. ‘‘A gente fica morrendo de pena de nós mesmos. Não fala sobre a doença por causa das piadas que existem. É terrível.’’
Enquanto aguardava atendimento, a professora conheceu um doente que enfrenta um drama ainda maior. Por morar em uma cidade pequena, vem a Londrina fazer o tratamento com receio de ver toda sua família discriminada pelos moradores do local. ‘‘Ele acha que as próprias enfermeiras poderiam contar para os outros e todo mundo ficar sabendo.’’
A falta de informação sobre a doença é um grande problema, diz a professora. Ela confessa que antes tinha pouca informação sobre a hanseníase. Por conta disso, afirma: ‘‘Os outros olham para você pensando no futuro. Acham que vai cair pedaço’’.
S.S. não apresentou os mesmos sinais caraterísticos da doença. Há indícios de que possua uma forma rara, que não se manifesta através de manchas na pele. ‘‘Tive dor na articulação, no cotovelo.’’
Já o casal de aposentados, Alício, 79 anos, e Aparecida de Oliveira, 76, tiveram a confirmação da doença, que se manifestou através de manchas na pele, no final do ano passado. Alício foi o primeiro a constatar a presença de manchas e a sentir formigamento nas mãos. Ambos estão em tratamento. ‘‘Graças a Deus não temos problema por causa disso não. A gente tem que se tratar até ficar bom’’, comenta Alício.
Consenso entre os que procuram o Programa de Controle de Hanseníase é a qualidade do atendimento prestado pela equipe do setor. ‘‘Elas atendem com carinho, se preocupam com a forma como você está e dão informações’’, diz a professora S.S. ‘‘São abnegadas, nem parecem funcionárias públicas’’, elogia F.C. Em tratamento desde 1993, o aposentado acha que o programa deveria ter um reforço de pessoal. ‘‘Hoje tem apenas uma médica’’, diz. Anos atrás, o setor já teve cinco.
O programa chegou a ficar durante cinco meses sem um clínico. Em julho do ano passado, voltou a contar com uma médica, que atende de segunda a sexta-feira, das 8 horas ao meio-dia. A profissional foi contratada pelo Consórcio Intermunicipal de Saúde do Médio Paranapanema (Cismepar), composto por Londrina e outros 16 municípios. São atendidos em média 16 portadores do mal de Hansen por dia.
(Luka Morais)

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