Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou ontem, em cerimônia no Planalto, o envio ao Congresso da nova política de saúde mental do governo, que prevê benefício de R$ 240 mensais para que pacientes internados em hospitais psiquiátricos voltem às suas casas. O governo espera atender 2 mil pessoas este ano no Programa Volta para Casa. Até 2007, a meta é beneficiar 14 mil pacientes que receberiam alta do hospital psiquiátrico para se recuperar em casa, com o apoio da família.
O governo oferecerá um auxílio para reabilitação psicossocial, a ser pago mensalmente durante um ano, renovável caso o paciente ainda não esteja em condições de se reintegrar totalmente à sociedade. Pela proposta encaminhada ao Congresso, poderão receber o incentivo pacientes que tenham permanecido internados em unidades psiquiátricas por um período mínimo de dois anos.
Além do auxílio financeiro, haverá um programa de reintegração assistida com ações de reabilitação, residência terapêutica, trabalho protegido, lazer assistido, dependendo da necessidade de cada paciente.
Na cerimônia, com a participação dos atores Maria Fernanda Cândido e Rodrigo Santoro, Lula provocou risos ao dizer que falar de doença mental não é difícil para ninguém. ''Todos temos um pouco de louco dentro de nós''. E desafiou: ''Quem não acreditar, é só fazer uma retrospectiva de seu comportamento pessoal, nos últimos dez anos, que vai ver como já viveu esse momento''.
Em seu discurso, o presidente Lula contou uma história para mostrar a necessidade de se dar afeto às pessoas e a importância do apoio da família na recuperação. Lula relatou o que viu na Clínica Anchieta, em Santos. Ao visitar o local ele se deparou com pessoas ''totalmente deformadas'', ''como se fossem verdadeiros animais irracionais''. Anos mais tarde, viu algumas dessas mesmas pessoas trabalhando em creches, ajudando a cuidar de crianças.
''Essa revolução pode ser feita a partir de uma lei como essa'', disse o presidente, ao lembrar que ''há lei que pega'' e ''lei que não pega''. E avisou: ''Eu quero dizer para vocês que todas as leis que nós fizemos vão pegar porque elas têm que ser consubstanciadas num debate que envolva a sociedade brasileira''.
Na solenidade, a atriz Maria Fernanda Cândido, formada em terapia ocupacional, relatou a experiência que teve, em 2001, no Centro de Atenção Psicossocial (Capes), em São Paulo. ''Eu, se soubesse que a Maria Fernanda trabalhava no Capes, teria me internado lá, mas só soube depois'', brincou o presidente, diante da primeira-dama Marisa Letícia. Em seguida, emendou, ''se o Santoro fosse o ajudante dela, a Marisa iria junto.'' O ator Rodrigo Santoro foi protagonista do filme ''Bicho de Sete Cabeças'', produção brasileira sobre a vida de um paciente internado em um manicômio.
Londrina - Cerca de R$ 250 mil é o gasto por mês, em Londrina, com internações psiquiátricas. São cerca de 440 internações mensais, em hospitais-dia ou tradicionais, mantidas com recursos municipais. Segundo a gerente do programa de Saúde Mental, Christina Schurmann, os 297 leitos psiquiátricos conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS) estão sempre ocupados. ''Não chega a faltar vaga, mas existe espera de um ou dois dias'', explicou.
Para a psicóloga, é interessante fazer a reinserção desses doentes psiquiátricos na sociedade. ''Acredito que em alguns momentos, o portador de doença psiquiátrica necessite de internação, até para sua própria proteção, mas é também importante fazer um trabalho com a família para que ele possa ser acolhido em casa e tenha condições de ser reinserido na sociedade'', avaliou. (Colaborou Chiara Papali)

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