É o médico quem dá a notícia ao paciente sobre uma doença grave. É ele também que conta sobre a morte de um paciente aos seus familiares. Mas será que esse profissional está preparado para essas situações? Segundo o coordenador do curso de especialização em Bioética da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, José Eduardo Siqueira, ''a rigor, não''.
Ele cita estatísticas de escolas de medicina dos Estados Unidos, mas acredita que refletem também a situação no Brasil. Segundo ele, das 126 escolas de medicina dos Estados Unidos, apenas cinco trabalham com questões relacionadas à morte. E dos 7.048 programas de residência médica, apenas 26 abordam o tema. ''Os cursos de medicina estão dominados com informações técnicas, as escolas ensinam a cuidar de doenças, não de pessoas'', critica.
O ponto de referência para o paciente é o médico, por isso Siqueira defende a necessidade de preparar o profissional para dar uma notícia ruim e ajudar o paciente a elaborar isso. Segundo ele, o novo currículo do curso de medicina da UEL está adotando disciplinas que ensinam como dar a notícia ao paciente. ''Simplesmente entregar a notícia e se afastar como quem não tem nada com isso é cruel. Isso não é cuidar da pessoa'', afirma, lembrando que o filósofo grego Hipócrates pregava a philia (palavra grega que significa amor, carinho, amizade e compaixão) como o único laço verdadeiro entre médico e paciente.
O paciente com uma doença grave passa normalmente por cinco fases, explica Siqueira citando o estudo da psiquiatra radicada nos Estados Unidos Elisabeth Kubler Ross. A primeira fase é a da negação, quando o paciente não aceita o diagnóstico, acha que o exame não está correto. A segunda fase é a da ira, da raiva, quando o paciente fica se perguntando: ''porque eu?''. A terceira fase é a da barganha com Deus, quando o paciente promete fazer isso ou aquilo se for curado. Na quarta fase, o paciente fica apático, não quer contato com ninguém, pensa: ''eu vou morrer mesmo...''. A quinta fase é a da reflexão e da aceitação. ''Nem todos chegam na fase de aceitação, mas o médico poderia ajudar nesse processo'', afirma.
Aprender que a morte faz parte da vida pode fazer diferença também na vida profissional do médico, pois para quem é considerado o ''super-herói'' que salva vidas, perder um paciente reflete como uma derrota. ''Para o médico significa um grande sofrimento, com consequências para sua vida pessoal. É um equívoco na formação do médico imaginar que ele salva sempre, que vence todas as doenças. A medicina tem limites apesar dos avanços tecnológicos'', ensina Siqueira.

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