Doenças mentais são as que mais afastam do trabalho
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
Simone Iwasso<br>Agência Estado 
As doenças mentais são responsáveis por cinco das dez principais causas de afastamento do trabalho no País - sendo a primeira delas a depressão -, o que representa um gasto de R$ 2,2 bilhões por ano, o equivalente a 19% dos custos com salário-doença pagos pela Previdência Social a um universo de 1,5 milhão de pessoas. Os números aparecem num levantamento sobre a infra-estrutura dos serviços de saúde mental no Brasil feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS).
O estudo foi divulgado durante o seminário Ação Global para o Aprimoramento Mundial da Saúde Mental, parte de uma iniciativa da publicação científica inglesa The Lancet, que neste mês compilou uma série de artigos sobre saúde mental e seus impactos em vários países, entre eles o Brasil.
''As doenças mentais são as que mais incapacitam as pessoas e os gastos com a assistência representam apenas 2% do orçamento do Ministério da Saúde. Observamos um grande descompasso entre o impacto das doenças e o investimento no cuidado com elas'', afirma o psiquiatra Jair Mari, professor da Unifesp e responsável pela pesquisa. Ele enumera os problemas: depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar, abuso de álcool e episódios de violência, que podem estar relacionados com várias patologias.
Sem diagnóstico precoce, sem acompanhamento adequado, essas pessoas aparecem na rede quando já estão totalmente incapacitadas e as doenças atingiram um estágio crônico. ''Para lidarmos com tudo isso, o relatório aponta para a necessidade de essa fatia do orçamento aumentar para cerca de 5%, para conseguirmos melhorar a rede de atendimento, principalmente a atenção primária, que pode ser feita em parceira com as equipes do Programa Saúde da Família, que precisam ser treinadas'', completa.
Esse é justamente um dos principais desafios apontados pelo estudo: apesar de a rede estar aumentando, ainda não há locais suficientes para assistência a portadores de transtornos mentais. A oferta cresceu depois do início da reforma psiquiátrica, que prevê a desativação dos antigos manicômios por centros de atendimento psicossocial, chamados Caps, e por leitos de internação em hospitais gerais.
''A gente tem os dados do sistema, mas muita gente nem chegou a entrar nas estatísticas, fica trancada em casa, incapacitada. Há um estigma muito forte, as famílias ainda não sabem o que fazer e os profissionais do Saúde da Família conseguem chegar aonde a rede de atendimento não chega, eles vêem essas pessoas, mas não estão preparados para diagnosticá-las e tratá-las'', conta Ana Maria Pitta, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (Ufba).
''Na minha família existem pelo menos 30 bipolares. Eu tenho a doença, minha filha também tem. Os serviços psiquiátricos públicos são terríveis. Ninguém em surto pode ficar meses esperando'', conta a filósofa Cássia Janeiro, de 44 anos, que acredita que falta conscientização e uma maior seriedade dos próprios profissionais da saúde para lidarem com os pacientes.
''Dentro de casa o tratamento é inadequado, as pessoas comuns não sabem o que fazer com um doente mental. Há um preconceito muito grande com a doença psiquiátrica. O sujeito que bebe e chega alcoolizado ao hospital não é simplesmente um bêbado vagabundo'', diz ela, que está escrevendo um livro sobre o convívio com a doença.


