A Rede de Diversidade Genética de Vírus, lançada neste final de semana pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), irá mapear trechos dos vírus causadores da Aids, do hantavírus, do causador da hepatite C e o vírus respiratório sincicial (VRS), que provoca doenças respiratórias, com o objetivo de procurar ajudar no tratamento dessas doenças.
‘‘Mais do que obter informações genéticas por sequenciamento, vamos trabalhar junto com a parte clínica, ajudando no desenvolvimento de diagnósticos e vacinas’’, destacou Paolo Zanotto, biólogo do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e um dos coordenadores da rede.
Os vírus HIV-1, causador da Aids, o hantavírus, o HCV, da hepatite C, e o VRS já têm seus genomas mapeados. O que os 17 laboratórios da rede vão fazer é mapear pedaços dos vírus que sejam de mais interesse, como os que determinam o caráter de dominância e de resistência do vírus. ‘‘Vamos buscar as mutações, não nos interessa fazer o mapeamento completo, exceto em casos de mutação muito raros. Queremos estudar a diversidade desses vírus, como eles estão evoluindo’’, explicou.
Ao trabalhar conjuntamente com a área clínica e a biologia molecular, a rede irá esclarecer diversas dúvidas sobre as doenças. No caso da Aids, por exemplo, os pesquisadores poderão entender por que o vírus está passando por um processo de seleção que o torna mais resistente às drogas existentes. O trabalho irá traçar um mapa das doenças, um quadro epidemiológico com a distribuição dos subtipos virais. Dará estatísticas mais precisas e descreverá os tipos de vírus que mais atacam a população paulista. ‘‘Muitas drogas feitas no exterior podem não ter o efeito desejado em um paciente aqui porque elas foram criadas para um tipo de vírus diferente do existente nos doentes aqui no Brasil’’, comentou Paolo Zanotto.
Em paralelo, esse grande projeto, orçado em US$ 10 milhões para um prazo de três anos e meio, irá desenvolver a bioinformática de alta performance e gerar uma mão-de-obra mais especializada para a biologia molecular. Mais grupos de pesquisadores estarão trabalhando com doenças emergentes e virologia molecular. ‘‘Com nossos estudos, saberemos quem é o vírus, teremos uma estrutura para prever surtos de doenças e para acompanhar as variações dos vírus durante um surto’’, afirmou. Esse trabalho será desenvolvido junto com o Centro de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo.
Em 30 de março do ano que vem sai a relação completa dos laboratórios que vão trabalhar no projeto. A rede começa a funcionar, na prática, em junho de 2001, com o início dos estudos do HIV-1. No trabalho, serão colhidas 600 amostras de detentas do Carandiru. ‘‘A situação de confinamento pode nos ajudar a entender o processo de desenvolvimento e de transmissão do vírus’’, justificou. O trabalho com o HIV termina em janeiro de 2002, começando depois a pesquisa com o da hepatite C. Em outubro de 2002, iniciam-se as pesquisas relacionadas ao VRS e o hantavírus.
Nível elevado de segurança para o hantavírus - Para a pesquisa com o VRS e o hantavírus, será necessário implementar técnicas para colher amostras do vírus. Principalmente para o trabalho com o hantavírus, será preciso construir laboratórios de nível P3 de segurança, que contam com sistemas sofisticados para impedir que o material com vírus contagie os pesquisadores e escape para o meio ambiente, e também para que não aconteça contaminação das amostras.
Hoje, apenas o Instituto Adolfo Lutz faz, em todo o Brasil, exames que detectam o hantavírus, que causa pneumonia hemorrágica. A Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu está construindo um laboratório desse nível e poderá, no futuro, trabalhar com hantavírus. Por enquanto, fará apenas os trabalhos de pesquisa com o vírus da hepatite. O hantavírus é transmitido por fezes de ratos e se espalha pelo ar. Apesar de haver poucos registros no Brasil, a doença tem aparecido no Uruguai e Argentina, e por isso preocupa os pesquisadores brasileiros. ‘‘Vamos fazer testes para comparar a variabilidade genética e saber que tipo de vírus existe aqui’’, explica Edison Luiz Durigon, biomédico do ICB da USP.
Já a hepatite C afeta 200 milhões de pessoas em todo o mundo, 1,6 milhão só no Brasil, aproximadamente. Segundo João Renato Rebello Pinho, médico do Instituto Adolfo Lutz, uma vacina para tratamento dos doentes está para ser lançada, mas ainda não há medicamentos para prevenção. ‘‘O tratamento é caro, 20% se tornam casos graves, evoluindo para uma cirrose ou câncer de fígado’’, disse.
O VRS é a maior causa de doença grave pulmonar em criança abaixo de um ano de idade, causando bronquiolites – processo infeccioso dos brônquios – e pneumonia. É responsável por 70% das internações de crianças no inverno. ‘‘É de difícil detecção, muitos confundem com outras doenças e receita antibiótico. Tem alta taxa de mortalidade, e não há vacina para essa doença respiratória, que pode evoluir para uma asma’’, comentou Pinho.

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