Doenças causadas pelo fumo mataram cerca de 1,1 milhão de pessoas em 30 anos no País, diz médico
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de agosto de 1999
Por Murilo Fiuza de Melo 
Rio, 03 (AE) - Pelo menos 1,1 milhão de pessoas morrerram no Brasil nos últimos 30 anos em consequência de doenças decorrentes do tabagismo. Esse número consta de um levantamento inédito realizado pelo cardiologista gaúcho Aloysio Achutti, de 65 anos, assessor da Câmara Técnica sobre Tabagismo, do Instituto Nacional do Câncer (Inca), do Ministério da Saúde. O trabalho foi apresentado, hoje à tarde, no 1º Simpósio Internacional sobre Tabagismo, no Rio, promovido pela Associação Médica Brasileira (AMB). Nas últimas três décadas foram consumidos no País cerca de 3,7 trilhões de cigarros - o equivalente a pouco mais da metade do consumo anual do produto no mundo.
O total corresponde a 2,7 milhões de toneladas de tabaco
4 mil toneladas de nicotina, 50 mil toneladas de alcatrão, 50 mil toneladas de monóxido de carbono e 50 toneladas de amônia. As conclusões de Achutti baseiam-se em cruzamentos de estatísticas produzidas pelos ministérios da Saúde, Agricultura e Indústria e Comércio; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE); Associação Brasileira das Indústrias do Fumo (Abifumo); além da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, que
anualmente, faz checagem dos dados de consumo e produção de cigarros das maiores empresas americanas de tabaco. As informações sobre mortalidade são oriundas de dados sobre óbitos por câncer de pulmão registrados pelo Ministério da Saúde nos últimos 18 anos.
"De 1981 para cá, temos dados precisos sobre mortes por esse tipo de câncer", explica o médico, que de 1982 até esse ano integrou o Comitê de Especialistas de Fumo e Saúde da OMS. Para os anos anteriores, foram feitas projeções estatísticas, com base, principalmente, nos números referentes a produção do cigarro. "Sabemos, por exemplo, que no Brasil há um óbito por câncer de pulmão para cada 9 toneladas de tabaco consumidas", afirma. Os outros dados que compõem o quadro das principais doenças provocadas pelo cigarro vêm do Departamento de Saúde americano - o Surgeon General. Segundo Achutti, estudos do órgão
mostram que, em média, para cada 1 milhão de mortes provocadas pelo tabagismo, 27,5% são decorrentes do câncer de pulmão; 37,5%
por doenças cardiovasculares; e 35%, por outros fatores - como cânceres de laringe e boca, entre outros; abortos espontâneos ou mortes de bebês prematuros, filhos de mães fumantes. Ação - Além de Achutti, o seminário da AMB contou com a presença do advogado Richard Daynard, especialista em legislação americana contra a indústria do fumo. Diretor do Programa de Responsabilidade de Produtos de Tabaco, da Northeastern University, de Boston, Daynard se mostrou pessimista em relação ao sucesso de ação por danos materias que o governador do Rio, Anthony Garotinho, impetrou, no último dia 13, em um tribunal de Nova York, contra as fábricas Phillip Morris e R.J. Reynolds.
"A Justiça americana é muito nacionalista", afirmou. "Se for para obrigar as indústrias a pagarem indenizações milionárias por causa dos males provocados pelos cigarros, os juízes vão preferir dar esse direito aos cidadãos americanos". Garotinho alega que, nos últimos 30 anos, o Estado teria gasto cerca de US$ 10 bilhões com pacientes vítimas de doenças provacadas pelo tabagismo. Daynard aconselha o governador, porém
a mover também uma ação contra as duas fábricas na corte brasileira.
Atualmente, além do Estado do Rio, cinco países movem ações contra a indústria do tabaco nos Estados Unidos. Por uma vitória dos empresários do setor, porém, todos os processos foram transferidos para uma única vara federal, em Washington. "Cabe apenas a um juiz decidir a questão", lembra. Segundo Daynard, o veredito desse juiz sobre a ação movida pela Guatemala (o primeiro país a entrar com um processo desse tipo nos Estados Unidos, há dois anos) valerá para todas as outras. O resultado deve sair em três meses.
Desde de 1954 até hoje, segundo o advogado, mil processos contra a indústria americana do tabaco deram entrada na Justiça dos Estados Unidos. Destes, somente 40 foram aceitos, dos quais apenas sete chegaram a um veredito favorável à vítima.


