Uma doença pouco conhecida - a paracoccidioidomicose ou PCM - é a oitava causa de mortalidade entre as doenças infecciosas e parasitárias crônicas. Ela mata tanto quanto a hanseníase e mais que a leishmaniose e atinge principalmente homens em idade ativa - entre 30 e 59 anos. A conclusão é do pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz), o dermatologista e sanitarista Ziadir Coutinho, primeiro a estudar os dados sobre a mortalidade da doença. Ele defendeu tese de mestrado sobre o assunto na Escola Paulista de Medicina.
‘‘O Brasil responde por cerca de 75% dos casos por PCM no mundo. É uma doença latino-americana por natureza, um problema nosso, que nós é que vamos ter de estudar’’, diz Coutinho ao justificar sua tese.
Entre 1980 e 1995 - período pesquisado -, 3.181 pessoas morreram infectadas pelo fungo P. brasiliensis. Das vítimas, 84,8% eram homens. Mais da metade (55,8%) trabalhava em atividades rurais e 19,3% empregavam-se na construção civil.
‘‘São atividades em que se revolve a terra. A derrubada de barrancos, um trator que abre a estrada dispersa no ar partículas infectantes do fungo, que podem ser inaladas’’, explica o professor Bodo Wanke, um dos orientadores de Coutinho e chefe do serviço de Micologia do Hospital Evandro Chagas, da Fiocruz.
Como a infecção pelo fungo Paracoccidioides brasiliensis não é de notificação compulsória, Coutinho partiu de dados do Ministério da Saúde sobre os casos de morte por PCM. Coutinho descobriu que a doença, descrita pela primeira vez por Adolfo Lutz no início do século passado, não se restringe às Regiões Sul e Sudeste, como se pensava. Em cada Estado do País há pelo menos um caso de morte por PCM.
O fungo acomete os pulmões e a pele, inicialmente. Mais tarde atinge fígado, pâncreas, laringe, faringe e pode chegar ao cérebro. Os sintomas são ‘‘pobres’’, segundo Coutinho. ‘‘Uma pessoa pode estar com o pulmão destruído pelo fungo e apresentar apenas tosse seca ou rouquidão’’, explica o sanitarista. É comum a doença ser tratada como tuberculose, até que se descubra a gravidade do quadro. Wanke lembra o caso de um búlgaro que esteve no Brasil e só teve a PMC diagnosticada 30 anos depois, quando seus pulmões estavam comprometidos.
Até a pesquisa de Coutinho, acreditava-se que o fungo P. brasiliensis vivia e se reproduzia somente em terras úmidas. O sanitarista demonstrou que a doença se disseminou em regiões mais secas. Apesar de o Sul ainda liderar o índice de mortalidade no Brasil - 3,11 mortes por milhão de habitantes -, o Centro-Oeste aparece em segundo lugar em número de casos, com índice de mortalidade de 2,42. O Sudeste tem índice de 1,82. O número de morte nas regiões Norte e Nordeste, juntas, é inferior a 1 caso por milhão de habitantes. ‘‘A caminhada da doença ocorre de acordo com a movimentação do homem para exploração da natureza’’, acredita Coutinho.
Ele comprova ainda em seu trabalho que as mulheres têm maior imunidade ao fungo. Do total de mortos, apenas 15,2% eram mulheres. Coutinho explica que são os hormônios femininos, como o estrógeno, que protegem as mulheres.

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