Desnutrição, anemia, doença infantil ou uma gripinha. Nas crianças, o câncer pode ser confundido com tudo isso. A doença chega a ser traiçoeira porque os sintomas são muito comuns - febre, dor no corpo, aumento de gânglios, sonolência. Mesmo assim, médicos do mundo todo correm atrás de sinais que possam adiantar o diagnóstico do câncer infantil.

Estudos indicam que o desafio não é só do pediatra, mas também dos pais, dos professores e das outras pessoas que cuidam das crianças. ''Por isso é tão importante que o pediatra preste atenção nas queixas dos pais'', diz Beatriz de Camargo, chefe do Departamento de Pediatria do Hospital do Câncer A. C. Camargo.

''O pediatra tem de pensar em câncer em determinadas situações'', completa Vicente Odone filho, responsável pela Unidade de Oncologia do Instituto da Criança (ICr) do Hospital das Clínicas.

Mas nem sempre a dificuldade tão característica do câncer infantil é a responsável pelo atraso no diagnóstico. Na Associação Pró-Hope Casa de Apoio ao Menor Carente com Câncer, as famílias vêm de longe em busca de tratamento. Na bagagem, muitas trazem histórias que mostram a falta de preparo do médico para lidar com o câncer infantil.

É o caso de José Everton de Souza, de 6 anos, que veio do interior do Sergipe. Com dor e uma saliência na perna direita, foi atendido em um hospital público. Como ele tinha caído, o pediatra pediu logo um raio X para investigar se havia fratura. ''O médico disse que era um abscesso'', conta a mãe Rosângela de Souza, de 23 anos.

O tratamento indicado foi cirúrgico para retirar o abscesso da perna de José Everton. Foi depois da cirurgia que Rosângela começou a desconfiar. ''O abscesso continuava lá, dava para ver que não tinha sido retirado.'' Consultando enfermeiros e outros médicos, Rosângela descobriu que seu filho tinha sido submetido a biópsia - exame que faz análise microscópica de um pequenino fragmento de tecido. Segundo o pediatra, estava tudo bem. Mas não era bem assim: José Everton tinha osteossarcoma, um tipo de tumor de osso. O diagnóstico certo só foi feito quando outro médico repetiu a biópsia. Há dois meses, José Everton está em São Paulo, em tratamento no Hospital do Câncer.

Depois de passar um ano em tratamento no ICr, Márcio Germano, de 11 anos, está pronto para voltar para casa, em Maceió, Alagoas. Ele tinha 6 anos quando apareceram os primeiros sinais do que era um tumor na cabeça. ''Febre, vômitos e dor de cabeça'', explica a mãe Marinita Germano, de 36 anos.

Foram quatro anos de peregrinação a vários médicos. ''Falavam que era desnutrição.'' Márcio piorou e recebeu um diagnóstico diferente, mas ainda errado: tumor benigno. (L.M./AE)

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