Documentos podem "fazer ruir os pilares da nação", diz senador; adiado depoimento de Mauch
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segunda-feira, 19 de abril de 1999
Por José Ramos e Nelson Breve 
Brasília, 19 (AE) - "Esses documentos podem fazer ruir os pilares da nação", declarou na noite de hoje (19) o relator da CPI dos Bancos, senador João Alberto (PFL-MA), referindo-se aos papéis apreendidos pelo Ministério Público na casa do ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes no Rio de Janeiro por integrantes do Ministério Público e agentes da Polícia Federal.
O relator fez a declaração após encontro sigiloso, concluído há pouco, entre os senadores da CPI e os procuradores envolvidos na apuração e informou que o depoimento do ex-diretor do Banco Central Cláudio Mauch, marcado para amanhã, foi adiado para que os parlamentares tenham tempo de se debruçar sobre os documentos.
Os documentos serão agora submetidos a uma perícia grafotécnica e, segundo João Alberto, se sua autenticidade for comprovada, serão "coisas bem difíceis para ele (Lopes) se salvar numa CPI". Ele acrescentou que, entre os senadores, há um "sentimento generalizado de horror". Disse que até o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que vinha se declarando disposto a votar a favor de Francisco Lopes, "está estarrecido".
Outro integrante da CPI, o senador Eduardo Siqueira Campos (PFL-TO), disse que, pela descrição que os procuradores fizeram do conteúdo dos documentos, estes são "um pouco mais fortes do que nitroglicerina pura".
O senador Roberto Saturnino Braga (PDT-RJ) afirmou que o conteúdo dos papéis é de uma "imensa" gravidade. "Ele (Lopes) não tinha condições de vir hoje (depor na CPI); para ele, agora, a coisa complicou", disse, referindo-se ao pedido do ex-presidente do BC para que seu depoimento fosse adiado por 20 dias. Os senadores remarcaram o depoimento de Lopes para o dia 26.
O relator João Alberto disse que entre os documentos há uma carta na qual Luiz Bragança, ex-sócio de Lopes na Macrométrica, reconhece uma dívida de US$ 1,765 milhão para com a mulher de Francisco Lopes. A carta, anterior à chegada de Lopes à Presidência do Banco Central, diz, de acordo com Alberto, que, se qualquer coisa acontecesse com ele, Bragança, essa quantia teria que ser paga à mulher de Lopes. Esse dinheiro estaria depositado no Exterior.
O relator contou também que, nos documentos, há informações sobre esquemas de reuniões com outros bancos além do Marka e do FonteCindam, mas nada foi encontrado em relação aos bancos estrangeiros que estão sendo investigados pela CPI a partir de uma denúncia do deputado Aloísio Mercadante (PT-SP).
De acordo com João Alberto, entre os papéis apreendidos, há documentos do Marka que mostram que, embora essa instituição tenha tido lucro de apenas R$ 8 milhões em 1998, concedeu um patrocínio de R$ 3,6 milhões para uma empresa náutica. O relator disse desconfiar de que esse patrocínio tenha encoberto um possível desvio de dinheiro. Em seguida, João Alberto fez a ressalva de que, como relator não poderia dar mais detalhes.
"Do jeito que está, (a CPI) zerou tudo e começou de novo". Amanhã, a CPI terá nova reunião sigilosa para discutir o assunto. Em razão do novo quadro, os dirigentes da comissão pensaram em antecipar as datas dos depoimentos já marcados, mas decidiram não fazer isso, porque será necessário um tempo para que peritos examinem os documentos.


