Documento implica os EUA em morte de jornalista no Chile
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quinta-feira, 07 de outubro de 1999
Por George Gedda 
Washington, 08 (AE-AP) - Os serviços de inteligência dos Estados Unidos podem ter desempenhado um "infeliz papel" na morte de um jornalista americano nas mãos das forças de segurança chilenas nos primeiros dias do golpe militar de 1973 no Chile, segundo um documento desclassificado do Departamento de Estado divulgado hoje (08).
O documento foi tornado público poucas horas depois que um magistrado britânico decidiu em Londres que o ex-ditador chileno Augusto Pinochet deve ser extraditado para a Espanha a fim de ser julgado por tortura e desrespeito aos direitos humanos durante seu regime.
Conversando com repórteres, a secretária de Estado Madeleine Albright disse que os Estados Unidos têm condenado ações do governo Pinochet quando ele estava no poder e apóiam esforços para se buscar justiça e "responsabilidades". Mas ela afirmou que o processo legal provavelmente será longo e ela não iria comentar especificamente sobre a decisão judicial.
O documento de 23 anos do Departamento de Estado faz parte da liberação hoje de 1.100 arquivos do governo dos EUA relacionados ao golpe de 1973. A CIA tem sido acusada de segurar alguns documentos sobre suas atividades secretas no Chile.
Numa entrevista coletiva em Ottawa, o presidente Bill Clinton disse que apóia a liberação de outros documentos americanos relativos às ações dos EUA na época. "Acho que você tem o direito de saber o que ocorreu naqueles tempos e como ocorreu", afirmou Clinton.
O documento divulgado hoje relata o assassinato do jornalista free lance Charles Hormann. Ele foi detido em sua casa cerca de uma semana depois do golpe de 11 de setembro de 1973 e levado para um estádio onde supostos esquerdistas foram amontoados numa caótica consequência do golpe que levou Pinochet ao poder.
O documento afirma que no melhor dos casos, o papel da comunidade de inteligência dos EUA na morte de Hormann "foi limitado a oferecer ou confirmar informações que ajudaram a motivar seu assassinato pelo governo do Chile.
"No pior, a inteligência dos EUA estava consciente de que o governo do Chile via Hormann numa luz muito séria e autoridades dos EUA não fizeram nada para desencorajar o lógico resultado da paranóia do governo do Chile".
Hormann foi assunto de um filme de 1982, "Missing", que sugeria a complicidade americana em sua morte e que atraiu duras críticas de autoridades do Departamento de Estado, entre elas Nathaniel Davis, então embaixador americano no Chile.
A viúva do jornalista, Joyce Horman, da cidade de Nova York, recebeu o documento de duas páginas nesta sexta-feira do Arquivo de Segurança Nacional, um grupo de pesquisa da Universidade George Washington. Ele foi escrito em 25 de agosto de 1976, pelo chefe do Escritório de Assuntos Chilenos do Departamento de Estado.
"Esse caso continua incômodo", afirma o documento do Departamento de Estado. "As conotações para o (braço) executivo não são boas.
"No Congresso, comunidade acadêmica, imprensa e a família Hormann, as insinuações são de negligência de nossa parte, ou pior, de cumplicidade na morte de Hormann".
A viúva Hormann concedeu uma entrevista coletiva hoje em Washington ao lado de advogados dos direitos humanos, pesquisadores e Juan Garces, um advogado espanhol que deu início ao caso contra Pinochet em 1995.
Garces disse que recebeu a notícia sobre a decisão do magistrado britânico esta manhã em Londres "com grande satisfação" e que ela prova que ditadores "não podem encontrar refúgio em nenhum lugar do mundo".
Pinochet e seus oficiais militares derrubaram em 1973 Salvador Allende, um socialista que foi democraticamente eleito presidente do Chile - uma eleição que fez com que a administração Nixon temesse que o Chile se tornasse um bastião comunista na América do Sul.
Depois que Pinochet foi detido em Londres em outubro do ano passado, Clinton ordenou a agências do governo para desclassificarem documentos relacionados com abusos dos direitos humanos, terrorismo e outros atos de violência política no Chile entre 1968 e 1990. Cerca de 6.000 documentos foram divulgados em junho.
Apesar de Henry Kissinger, o assessor de segurança nacional de Niscon, insistir que os Estados Unidos não tiveram um envolvimento direto no golpe, Peter Kornbluh, analista do Arquivo de Segurança Nacional, acusa a CIA de estar escondendo informação sobre suas atividades encobertas no Chile, e exige que todos os documentos sobre a questão sejam tornados públicos.


