Documentarista admite contatos com traficante
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sábado, 26 de fevereiro de 2000
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 27 (AE) - O documentarista João Moreira Salles divulgou os contatos com o traficante Márcio Amaro de Oliveira, o "Marcinho VP", da Favela Santa Marta, em Botafogo, na zona sul do Rio, por sugestão do coordenador de Justiça e Segurança do Governo do Estado, Luiz Eduardo Soares. Salles e Soares conversam sobre o assunto desde dezembro passado, quando a polícia começou a investigar o cineasta. "Para evitar que policiais mal intencionados se aproveitassem da situação, sugerimos que João tornasse público seu relacionamento com o traficante", disse Soares.
Salles conheceu "Marcinho VP" há três anos, quando subiu a Favela Santa Marta para rodar o documentário "Notícias de uma Guerra Particular", sobre a violência carioca do ponto de vista dos criminosos, da polícia e dos moradores. "Vi que ele era uma pessoa que, ingenuamente, tinha acreditado que poderia fazer alguma coisa no sentido social através do tráfico e que, perdida essa ilusão, quis sair e reintegrar-se à sociedade", conta o cineasta. "Achei que era minha obrigação fazer o possível para dar-lhe esta chance, da mesma forma que é obrigação da polícia ir atrás de traficantes." Os dois tiveram contatos pessoais até março, quando o morro foi invadido pela polícia e "VP" fugiu. Na ocasião, o traficante - um dos mais procurados do Rio - tinha uma condenação a 40 anos de prisão e havia combinado com Salles escrever um livro e receber uma bolsa de R$ 1.200,00 por mês durante um ano. Com a fuga, o contato passou a acontecer por iniciativa exclusiva de "VP", pois Salles não sabia onde ele se encontrava e mandou o dinheiro por meio de terceiros. Segundo o traficante disse ao "Jornal Nacional", da Rede Globo de Televisão, ontem (26), houve sete remessas, mas Luiz Eduardo Soares fala em apenas quatro.
"Algumas vezes, quando telefonava, ele me dizia que se entregaria à polícia caso houvesse oportunidade de uma revisão de sua pena. Mas não acreditava que um um rapaz preto, pobre e com sua liderança tivesse chance", lembra Salles, que não teve contato com qualquer outro traficante. "Também não fui procurado pela polícia, não tive contato com outros traficantes, nem dei qualquer informação sobre o tráfico", conntinua. "Mas quero deixar bem claro que a polícia tem o direito e o dever de me investigar, até com escuta telefônica, desde que autorizada jucidialmente." Salles explica que encontrou em "VP" uma pessoa que acreditava estar no meio de uma revolução social, uma vez que, numa favela como a Santa Marta, situada num bairro de classe média e onde a maioria dos moradores trabalha no setor de serviços, o Estado só comparece como polícia. "A maior prova de sua boa intenção é que ele nunca quis contato com o pessoal do Cartel de Medelin, mas tinha muita vontade de conhecer o guerrilheiros de Chiapas, no México, e o comandante Marcos", diz o cineasta. "É uma posição ingênua, mas o que me interessa é a história de um rapaz que se tornou traficante aos 14 anos porque foi a única oportunidade que teve na vida." Hoje, nem a polícia nem Salles sabem onde "Márcio VP" se encontra. A Favela Santa Marta está novamente ocupada pela Polícia Militar porque o traficante Zacarias Gonçalves Rosa Neto, mais conhecido como "Zaca", de uma facção rival à de "Marcinho VP", invadiu o morro. Salles, irmão do premiado Walter Moreira Salles Júnior e um dos herdeiros do grupo Moreira Salles (Unibanco), está trabalhando numa série de seis documentários sobre o Brasil.
"Um deles, sobre os evangélicos, tem a ver com essa história do Marcinho VP, pois tento entender por que e como pessoas que militam na fronteira do mundo da ordem e do mundo da desordem conseguem criar o bem", adianta o cineasta. "Por enquanto, o que posso sentir é que os evangélicos conseguem levar um tipo qualquer de organização a quem a sociedade não oferece nada."


