Divulgação de conversas grampeadas toma conta das conversas de sem-terra
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segunda-feira, 07 de junho de 1999
Por Evandro Fadel 
Curitiba, 08 (AE) - A divulgação de trechos de diálogos entre líderes do Movimento dos Sem-Terra (MST) no Paraná, no qual ameaçam a juíza de Loanda, no noroeste do Estado, Elizabeth Khater, e falam em colocar fogo na delegacia da cidade e "capar" políticos e militares, deu o tom da manifestação que reuniu cerca de 3 mil sem-terra hoje, em Curitiba. Eles estão na capital para protestar contra o que consideram violência nas desocupações e a prisão de 41 sem-terra, trinta e cinco dos quais ainda presos.
Nas fitas, que tiveram pequenos trechos de uma degravação não oficial divulgados hoje pelo secretário de Segurança Pública do Paraná, Cândido Martins de Oliveira, um dos líderes do MST, Dirceu Boufler, em conversa com Marly Brambilla, também do movimento, diz: "Isso não melhora, Marly, enquanto nós não capar uns dois ou três políticos, invadir as delegacias, botar fogo no Fórum de Loanda..." Num dos diálogos, entre o líder nacional do movimento, Gilmar Mauro, e o líder do noroeste paranaense, Jaime Dutra Coelho, eles fazem menção de que sabiam do grampo, mas não titubeiam em afirmar que iriam ao Fórum de Loanda para "tirar a cabeça da juíza fora". O MST acusa a juíza de ter concedido 150 liminares de reintegração de terra e expedido 160 mandados de prisão contra membros do movimento, enquanto nenhum fazendeiro teve prisão decretada.
A juíza também relaxou a prisão de três acusados da morte do sem-terra Eduardo Anghinoni. "Ela ainda comemorou as reintegrações em um jantar com fazendeiros", acusou o coordenador Roberto Baggio. Em conversa entre Mauro e Coelho, eles também comentam que os sem-terra teriam fechado uma estrada para desviar um caminhão de boi para um acampamento, que serviria para alimentação dos acampados.
A liderança do movimento disse hoje que sabia do grampo nos telefones e, por isso, usava de um "tom irônico". "Era uma gozação pública pelos métodos que eles utilizavam, pela forma como eles tratam a reforma agrária, e no sentido de que a sociedade evoluiu, a sociedade não aceita mais que um secretário de Estado utilize os mesmos métodos da ditadura, da repressão", afirmou o líder, Rogério Mauro.
Boufler, outro dos líderes do movimento, disse que a divulgação das fitas "torna mais clara a perseguição do governo". "Prova que a juíza, o secretário de Segurança Pública e o governador estão em jogo político", afirmou. O MST está novamente pedindo a exoneração de Cândido Martins de Oliveira. O secretário considerou esse pedido "normal". "Não é a primeira vez que fazem isso e nem será a última", disse.
O pedido para que o telefone da cooperativa que o MST mantém em Querência do Norte, no noroeste do Estado, fosse grampeado foi feito pelo secretário. Segundo ele, entre as justificativas estavam as recomendações de lideranças nacionais para que houvesse "radicalização" e a afirmação do presidente Fernando Henrique Cardoso, na Alemanha, que classificou o movimento como "organização pára-militar". "Havia informações de que estava havendo armamento, sobretudo no noroeste", disse Oliveira. Ele não respondeu perguntas sobre grampo em outros telefones do movimento ou na União Democrática Ruralista (UDR).
Segundo o secretário, a justificativa do MST, de que se tratava de "ironia", não pode ser levada a sério. "Acho que é um deboche à inteligência da comunidade do Paraná dizer que durante 15 ou 20 dias só falavam brincadeiras", disse. "Se isso for verdade, mostra um caráter infantil e irresponsável dessas lideranças." Entre as gravações há algumas ligações feitas para o exterior.
Oliveira disse que há cerca de 150 fitas que foram entregues ao Instituto de Criminalística para a degravação. Depois, elas serão entregues aos Ministérios Públicos estadual e federal. "O Ministério Público vai fazer o enquadramento legal que tornar plausível", afirmou.
O secretário também pediu audiência ao ministro da Justiça, Renan Calheiros, a quem pretende entregar uma cópia das gravações. Ele disse também que a Polícia Militar estava garantindo a segurança da juíza de Loanda.
O coordenador do MST no Paraná, Roberto Baggio, disse que o movimento "suspeita que a Secretaria de Segurança Pública está sendo assessorada pela CIA norte-americana e aplica no Paraná os métodos que eles aplicam no combate ao narcotráfico e às guerrilhas". Ele afirmou que o movimento tem fitas com imagens de policiais sendo treinados pela CIA.
Os sem-terra que chegaram hoje em Curitiba acamparam em frente ao Palácio Iguaçu, apesar de a prefeitura ter destinado o Parque dos Tropeiros para o acampamento. Segundo Rogério Mauro, cerca de mil pessoas devem permanecer acampados no local até o retorno do governador Jaime Lerner dos Estados Unidos, no dia 16. Antes de fixar acampamento, os sem-terra fizeram uma passeata e atos públicos nas ruas de Curitiba, criticando o governo estadual.


